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Ativismos e efeitos na cultura

A Mulher repórter no jornalismo pós-industrial128

Jéssica de Oliveira Collado Mateos129.

Marli dos Santos130.

Resumo: Esta pesquisa buscou entender pelo olhar de repórteres mulheres como as novas tecnologias interferem na produção da notícia dentro das diferentes redações e plataformas e, em conjunto com o projeto-mãe “Olhar feminino no jornalismo investigativo” da Profª Drª Marli dos Santos, procurou analisar o tema pela questão de gênero, debatendo a existência dos resíduos patriarcais nas redações e mostrando como a mulher repórter conjuga os diferentes papéis sociais (elementos familiares e profissionais) em sua vida cotidiana. Para isso utilizamos de pesquisa bibliográfica e qualitativa (entrevista semiestruturada). Os resultados das análises mostram que as repórteres sofreram e sofrem o impacto das tecnologias digitais, implicando em mudanças nos processos produtivos e na circulação da informação jornalística. O relatório também identifica que a mulher ainda sofre preconceito nesse ambiente em transformação tecnológica.

Palavras-chave: Jornalismo Pós-Industrial, Convergência, gênero, Mulheres Jornalistas.

Abstract: This research sought to understand bye the eyes of women reporters how new technologies influence on production of news within the different newsrooms and platforms and, together with the project-mother "Women look at investigative journalism" by PhD Marli dos Santos, searched to analyzes the theme by the gender issue, ddiscussing the existence of patriarchal residues in newsrooms and showing how a woman reporter combines the different social roles in her daily life. For this we used bibliographical and qualitative research (semi-structured interview). The results of the analyzes show that as reporters they suffered and suffer the impact of digital technologies, implying in our production processes and the circulation of journalistic information. The report also identifies women as still suffering prejudice in this technologically changing environment.

Keywords: Post-industrial journalism, Women journalists, Convergence, Journalistic production, gender.

Introdução

Desde o período do pré-jornalismo, em que as conhecidas Actas Diurnas surgiram (século II a.C.) em Roma (SOUSA, 2008, p.36), o jornalismo tem sido arauto das atualidades que afetam a sociedade. Seja em função das necessidades do público, da tecnologia ou do contexto histórico, a atividade sofreu e sofre um processo constante de transformação necessário a toda instância social para o desenvolvimento da sociedade (ROCHA, 2014, p.1).

Antes da prensa de tipos móveis ser inventada por Gutenberg em 1450 (BRIGGS; BURKE, 2004, p.24) todos os livros eram escritos à mão. Antes do telégrafo os textos levavam horas e até dias para chegarem às redações. Antes das impressoras offset os jornais eram em preto e branco (BAHIA, 1990, p.353). Antes dos computadores modernizarem as redações tudo era redigido em máquinas de escrever. E com a internet?

De acordo com Antônio Francisco Magnoni (2014, p. 43) o processo de digitalização avançou sobre as redações na década de 80 com a entrada de computadores experimentais nas mídias impressas e cada nova geração de equipamentos informatizados acarretou maior rapidez operacional, eficiência e redução de custos, como em qualquer indústria. Assim, trabalhadores deram lugar às máquinas e programas, e as mudanças produtivas causaram problemas sociais num cenário de crise da economia nacional resultando numa retração ainda maior do mercado de trabalho. Segundo Magnoni (2014, p.45), todos os veículos buscavam digitalizar suas linhas de produção para reduzir o número de empregados e aumentar o lucro de suas empresas.

O que a velha mídia não previu foi a criação da Internet, uma arquitetura de rede que não pode mais ser controlada e centralizada - como Castells (2006, p.44) afirmou que queriam seus criadores quando a construíram no período da Guerra Fria – por ser composta por milhares de redes de computadores autônomos com inúmeras maneiras de conexão no mundo todo, logo cada pessoa ou grupo se apropria da ferramenta para uso segundo seus interesses e objetivos, como os ciberativistas que usam os meios digitais para articulação e mobilização e as empresas jornalísticas que incorporam novas técnicas online (PRIMO, 2013, p, 5).

Como podemos perceber, a rede mudou não só o fazer jornalismo, mudou também o modo como a notícia chega aos leitores. Se antes o público só tinha acesso as notícias do dia anterior no impresso ou ficava restrito ao conteúdo dirigido dos radiojornais e telejornais, agora ele mesmo pode selecionar o que quer ver, como quer ver, quando quer ver e ainda atuar como um prosumidor, conforme menciona Yamile Guerra (2014, p.6), que significa que o internauta “ao consumir enquanto se informa, produz texto”131.

E é nesse cenário de crise e reinvenção da atividade que surge a preocupação com a jornalista: a pesquisa de Alexandre Bergamo, Jacques Mick e Samuel Lima - Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política (PPGSP) da USCS, em convênio com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) - sobre o perfil do jornalista brasileiro, de 2012, mostrou que quase 64% dos profissionais são mulheres.

Nesse ambiente, onde a maioria é feminina, ainda impera a dominação masculina como ordem natural das coisas, dispensando justificativas mais laboradas ou racionais para a visão androcêntrica do mundo (BOURDIEU, 2002, p.17). Rose Marie Muraro e Leonardo Boff observam o mesmo no livro Feminino e Masculino: o patriarcado identificou o feminino com mulher, mutilando a construção do ser humano como figura una e diversa, recíproca e igualitária:

O drama da cultura patriarcal reside no fato de ela ter usurpado o princípio masculino somente para o homem fazendo com que este se julgasse o único detentor de racionalidade, do mando e da construção da sociedade, relegando para a privacidade e para tarefas de dependência a mulher, não raro considerada um apêndice, um objeto de adorno e satisfação. (BOFF; MURARO, 2002, p.76).

A mulher avança cada vez mais em busca da igualdade de gêneros, conquistou o direito ao voto, à liberdade sexual, não é subordinada ao homem e tem sua vontade própria, mas, apesar disso, os papéis sociais vigentes acabam diferenciando a real importância ou poder de cada sexo, seja na família, no trabalho, no cuidar dos filhos e até em posições de liderança, como explica o filósofo Gilles Lipovetsky em A terceira mulher (2000, p.235). As desigualdades, posições sociais e domínio do masculino não desapareceram, só estão menos evidentes e, para o autor, nada indica que este cenário irá mudar.

Diante do panorama exposto sobre o tema, a questão que surge é: Com a presente maioria feminina nas redações, quais são os desafios que as jornalistas, em especial as repórteres, vêm enfrentando na era da convergência?

Por meio desta pesquisa procuramos verificar quais são os desafios que as mulheres enfrentam nas redações multimídia na era da convergência, identificando o cotidiano na produção jornalística das entrevistadas neste estudo, além de discutir a transição do jornalismo tradicional para o pós-industrial. Para abarcar este universo, o estudo proposto foi o qualitativo, realizado por meio de pesquisa bibliográfica e entrevista semiestruturada com 5 repórteres da cidade de São Paulo, entre 26 e 49 anos, cada uma de um veículo diferente, sendo eles: televisão, impresso, rádio, portal de notícias e veículo online de jornalismo independente/alternativo.

Embora a pesquisa não abarque todo o universo feminino jornalístico, por ser uma amostra pequena, as entrevistas forneceram material esclarecedor e enriquecedor sobre a compreensão de ambos os temas, como a tecnologia afeta a atividade jornalística e também como a questão de gênero está presente na profissão - o que nos leva a pensar que a condição de desigualdade entre homens e mulheres tem que ser superada em toda a sociedade, para que assim nenhuma mulher sofra com assédios e julgamentos pela sua condição de gênero. Nas próximas páginas introduziremos o conceito de jornalismo pós-industrial, a situação das jornalistas no Brasil, e as conclusões do nosso estudo.

O jornalismo pós-industrial

Muitas pessoas devem se perguntar o que é jornalismo pós-industrial. De acordo com o criador do termo, o jornalista Doc Searl (2001), é um jornalismo que não é organizado “de acordo com as regras de proximidade do maquinário de produção”, ou seja, já não é mais necessário que a redação fique perto das gráficas como ocorria antigamente (ANDERSON, BELL, SHIRKY, 2013, p. 37).

De acordo com Christopher Anderson, Emely Bell e Clay Shirky (2013, p.30), a atividade no pós-industrial parte do princípio de que as instituições perderão seus lucros e participação de mercado, sendo que para manterem sua relevância terão de utilizar “novos métodos de trabalho e processos viabilizados pelas mídias digitais”. As mudanças afetarão tanto a rotina do jornal como o papel dos envolvidos na produção e distribuição do conteúdo. Os veículos serão obrigados a fazer menos com menos, sem condição alguma de manter o velho modelo (p.38). Assim podemos confirmar com Castells, é mudar ou sucumbir:

Atividades econômicas, sociais, políticas e culturais essenciais por todo o planeta estão sendo estruturadas pela Internet e em torno dela, como por outras redes de computadores. De fato, ser excluído dessas redes é sofrer uma das formas mais danosas de exclusão em nossa economia e em nossa cultura (CASTELLS, 2003, p.8).

Os autores do relatório de jornalismo pós-industrial trazem a adaptação às novas práticas, como uso de base de dados, múltiplas fontes e interação com o público, como condição para que o jornalismo sobreviva em meio à revolução digital. As técnicas e métodos tradicionais já não dão conta sozinhos das demandas, porque com a internet há uma explosão de informação, que é distribuída com facilidade pelos usuários e pelo jornalismo independente, sem fins lucrativos ou de crowdfunding. Essa nova realidade exige uma reestruturação organizacional e, no universo das redes digitais, uma mudança na forma tradicional de como a notícia é produzida e divulgada/circulada. Isso quer dizer que o bom jornalismo vai sobreviver, só que em outro ambiente, um novo sistema midiático, que requer adaptações.

Nesse sentido, Nelson Traquina (2005, p.22) explica que o jornalismo é uma atividade criativa e periódica marcada por neologismos e pela criação do mundo em notícias, mas que tem restrições seja pelo proprietário da empresa, pelo tempo ou por causa do formato.

Carlos Sória (2014, p.122-129) também concorda quando diz que as empresas tiraram esse poder do jornalista, interferindo na capacidade critica necessária à opinião pública. O autor elucida que nesse processo as redações foram enxugadas, as jornadas de trabalho se tornaram mais longas e jornalistas mais caros e experientes foram substituídos por profissionais com pouca experiência.

Em pesquisa feita por Roseli Fígaro sobre o mundo do trabalho dos jornalistas (2012, p. 61), é possível enxergar essas exigências: cobrança para se reinventar e ser multifunção; exclusão dos mais velhos pela falta de intimidade132 com a internet, como relata um dos entrevistados de 62 anos, e pelos salários mais altos, já que a experiência é fator diferencial; falta de tempo para outras atividade - uma jornalista disse ter que parar a pós-graduação porque o horário no emprego mudou e teve que optar pelo trabalho; maior demanda para produzir material para mídias diferentes; terceirização de serviços e relações precárias entre empregadores e contratantes (que querem burlar a CLT); também mostra que vários jornalistas seguiram a profissão por causa da idealização do jornalismo. Outra constatação é a de que o jornalista começa a trabalhar muito cedo, sendo incentivado a ter um emprego antes mesmo de se formar (p. 64).

Houve uma modificação no perfil profissional do jornalista: antes, um funcionário contratado das empresas de comunicação e, hoje, com a ajuda das tecnologias, pode ele mesmo tornar pública a informação. Mas não basta só isso, tem que contextualizar "a informação de modo que chegue ao público e nele repercuta", além de se valer da exímia apuração dos fatos (ANDERSON, BELL e SHIRKY 2013, p.33). Podemos exemplificar inicialmente com o fenômeno dos blogs, que trazem furos de reportagem. É o caso do blog de Ricardo Noblat133, sobre o escândalo do mensalão em 2005, ou a cobertura dos protestos que fervilharam pelo país em 2013 pela Mídia Ninja134, produzido e divulgado nas redes sociais, em modelo colaborativo.

Não obstante, muitas das estratégias utilizadas hoje não espelham diretamente o paradigma da reportagem tradicional. A maioria dos jornalistas, e das instituições jornalísticas, foi incapaz de tirar proveito da explosão de conteúdo de potencial interesse jornalístico trazida pela expansão da comunicação digital. As práticas do jornalismo pós-industrial ainda não são tão visíveis ou efetivas. O fato é que a maioria dos jornalistas que atuam em empresas viraram provedores de conteúdo, deixando de fazer apurações empiricamente mais robustas. Assim como a histórica falácia da “era de ouro” do jornalismo135, a crença no valor do trabalho original de reportagem muitas vezes supera o volume real do que é produzido (idem., p. 43).

A saída da crise, de acordo com os autores consultados acima, depende da exploração de novas possibilidades, novas formas de produção e distribuição da notícia, do bom aproveitamento das habilidades dos jornalistas e da reorganização das instituições.

A mulher jornalista no Brasil

Citando Ribeiro (1998), Regina Ramos (2010, p.214) explica que antes da primeira repórter mulher de São Paulo, Margarida Izar, ir a campo lá pelos anos de 1930, as redações eram espaços feitos para o homem e as mulheres ficavam encarregadas somente dos assuntos chamados de cama e mesa136. Margarida também foi a primeira mulher a entrar no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP) e a única a estar presente entre os 52 que fundaram a instituição.

Antes disso, Constância Lima Duarte (2016, p. 21-23) mostra que muitas mulheres militavam pela causa feminista durante o século XIX. As primeiras iniciativas femininas documentadas surgiram em Porto Alegre em 1883, Belona Irada contra os Sectários de Momo e Idade d’Ouro da escritora Maria Josefa Barreto e tinham cunho essencialmente político assim como outros que surgiram depois. As mulheres queriam participar da política, queriam ser vistas como mais do que adornos e queriam ter participação social. Outros títulos como O Bello Sexo de 1862, editado por Júlia de Albuquerque Sandy Aguiar, e O sexo Feminino de 1873, editado por Francisca Senhorinha da Mota Diniz, reivindicavam o direito à educação e eram a favor do progresso social.

Além dos periódicos feministas existiam aqueles que pregavam a valorização dos aspectos femininos, dos papéis de mãe e esposa, da mulher como uma santa e rainha dentro de seu lar, como afirma Duarte (p.23). Passando os mesmos ideais das estruturas limitadoras das mulheres: Igreja, Estado, família e escola. Citando Bourdieu (1999), a autora afirma que estas foram as instituições que ajudaram o patriarcado a legitimar seu poder e opressão sobre as mulheres. A Mai de familia (1879-1888) trilhou esse caminho e queria elevar a mulher na sociedade por meio da sua condição de mãe, mas ao contrário do que se pregava esse status somente contribuiu para que a mulher fosse mais afastada do espaço público, observa Constância. Assim, os jornais refletiam a dicotomia vigente: alguns defendiam os direitos e respeito à mulher e outros reafirmavam sua fragilidade relegando-a ao espaço privado como melhor opção. É necessário observar que homens e mulheres escreviam em ambos os tipos de imprensa, para que não se pense que não haviam homens que defendiam a igualdade de gênero ou mulheres que queriam que a desigualdade permanecesse (DUARTE, p. 22).

Em 1879, o governo permitiu que as mulheres começassem a estudar nas instituições de ensino superior, além dos colégios de secundária que começaram a admitir meninas, um deles o Liceu Santa Isabel fundado por Senhorinha Diniz, a editora do O sexo Feminino, que escrevia sobre igualdade de direitos e acesso à educação (p. 25).

O ano de 1832 foi marcado pelo livro de Nísia Floresta, educadora, escritora e poetisa brasileira, chamado Direitos das mulheres e injustiças dos homens, que propagavam a ideia de o gênero estar submetido ao fator financeiro. Suas ideias foram abraçadas por redatoras – como Narcisa Amália, Josefina Álvares de Azevedo, entre outras - que queriam conscientizar as leitoras “de seus direitos à educação, à propriedade, ao voto e ao trabalho” (p. 26). Assim, o protagonismo feminino entrou nas redações, tomando direção e abrindo espaço às vozes femininas que antes eram reclusas.

De lá para cá as mulheres cresceram em número dentro da profissão, conforme Paula Rocha (2007, p.3), dos 2,8% em 1939, as jornalistas passaram a compor 64,8% dos profissionais registrados na cidade de São Paulo em 1995. Já no Brasil de 1986, o feminino representava 36% do quadro e, em 2012, já era impressionante 64% dos profissionais de acordo Bergamo, Mick e Lima (2013, p. 7)137, sendo esse total predominantemente formado por mulheres brancas, solteiras e com até 30 anos.

Ana Carolina Temer, Francisco de Assis e Marli Dos Santos (2014, p. 77) explicam que a feminização da carreira pode ter ocorrido por causa da entrada gradativa das mulheres no mercado, da profissionalização do jornalismo, da preferência feminina por humanas e por não ser uma profissão consolidada. E mesmo que as mulheres sejam maioria, o cenário não é vantajoso de acordo com a pesquisa de Bergamo, Mick e Lima (p. 26), porque os homens ainda predominam nos cargos mais altos e recebem melhor remuneração.

A pesquisa “Trabalho Feminino e Vida Familiar: escolhas e constrangimentos na vida das mulheres no início do século XXI” (2013) da Unicamp, sob a coordenação da professora Maria Coleta de Oliveira e da pesquisadora Glaucia dos Santos Marcondes do Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (Nepo), e a Síntese de Indicadores Sociais (2014) mostram que além da estafa provocada no ambiente de trabalho para ambos os sexos, as mulheres fazem jornada dupla chegando a 20 horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos, enquanto os homens dispendem de 9 horas. No total, elas podem chegar a ter uma jornada diária de 13 horas, somando casa e trabalho. E em 2013, quase 88% das mulheres ocupadas faziam algum tipo de afazer doméstico, enquanto para os homens esse percentual chega a 46%.

Rocha (2007, p. 113-186) mostra em sua pesquisa que as mulheres são maioria em revistas e setores extra-redação, enquanto em jornais, rádio e televisão as profissionais se apresentam em menor número, mas de acordo com a pesquisadora a tendência é de que esse número aumente com a ocupação de novos postos não dominados pelo mercado masculino. Rocha conclui que a discriminação de gênero acontece mais em cidades do interior, por causa da visão mais tradicional, e que em São Paulo as entrevistadas não notaram isso.

Temer, Assis e Santos (2014) mostram em sua pesquisa sobre jornalismo de imersão feito por mulheres que a jornalista é criticada até pelos colegas de profissão quando necessita fazer seu trabalho sem identificação para conseguir informações, camufladas, e que também elas têm medo de fazer reportagens especiais com o método de imersão por causa da violência de gênero, falta de apoio dos chefes e família. De acordo com Boff e Muraro (2002), os resultados colocam em evidência a cultura dominante masculina que relega a mulher ao domínio privado e não ao público e que também determina certas áreas de atuação como femininas, mais emocionais e ligadas à família, ou masculinas, mais racionais e com maior poder.

Conclusões

Os resultados das análises mostram que as repórteres sofreram e sofrem o impacto das tecnologias digitais, implicando em mudanças nos processos produtivos, como passar a produzir matérias inteiras por meio de aplicativos e enviar para a redação, o desenvolvimento das narrativas transmídia e crossmídia ou até a facilidade de se fazer entrevistas por vídeo com fontes que estejam longe, e de circulação de informação jornalística, por exemplo, a matéria pode ser postada em várias mídias ao mesmo tempo e em redes sociais para atingir diversos públicos, além de que estes impulsionam as publicações por meio do compartilhamento em suas redes sociais.

As repórteres também sentem o peso da tecnologia: elas e os colegas têm a impressão de estar trabalhando 24 horas por dia, uma vez que estão sempre conectados aos dispositivos móveis, e admitem que é necessário se adaptar ao ritmo para não ficar ultrapassado. Concordam que a internet traz benefícios para o fazer jornalístico e mudou o modo como as notícias são produzidas, mas que também trouxe a crise da verba publicitária, sentida diretamente pelos jornalistas na redação: os que não são demitidos precisam fazer o trabalho que antes 2 ou 3 colegas faziam; além do medo de perderem o emprego ou do corte de salários. Esses fatores se acumulam e pressionam os jornalistas tanto psicológica como fisicamente.

O relatório também faz análise sobre a visão das jornalistas participantes sobre as relações de gênero, identificando que a mulher ainda sofre preconceito nesse ambiente em transformação tecnológica. Seja por parte dos colegas de trabalho, com o assédio sexual identificado pela repórter de televisão ou o assédio moral, exposto pela repórter do portal de notícias. Uma das repórteres, a do portal, inclusive necessitou sair da redação e mudar a ligação do telefone da emissora para o pessoal para responder as questões sobre gênero, possivelmente com medo de reprimendas dos colegas do sexo masculino. E a discriminação não se limita dentro das redações, está no tratar com fontes, mais além: na nossa sociedade.

Dessa forma, há um tensionamento ainda maior no ambiente do jornalismo pós-industrial, pelo viés de gênero, pois as exigências desse ambiente de transformações rápidas, em que a presença ubíqua das tecnologias digitais altera as práticas jornalísticas e sua circulação/recepção representam uma sobrecarga na jornada da mulher, que continua assumindo a responsabilidade pela educação e demandas dos filhos e da casa. Ela continua dividida, conforme diz Lipovetsky.

O fato de precisarem estar conectadas 24 horas por dia, sendo a tecnologia um fator que as estimula a esse comportamento para sobrevivência na profissão, e a necessidade de aprender novas tarefas, ser multimídia, não as libertou da jornada dupla ou tripla. Muito pelo contrário.

É importante ressaltar que continua a existir uma naturalização das relações de dominação, além de uma resistência da mulher em perceber que as relações de gênero continuam problemáticas, particularmente, no caso deste estudo, no ambiente de trabalho jornalístico. Em geral, as mulheres entrevistadas buscam reforçar a igualdade em suas falas, talvez para valorizar o seu papel como profissionais, como mulheres, porém, com essa atitude se esquecem de enxergar as diferenças, pior, naturalizam preconceitos e estereótipos presentes na sociedade patriarcal em que vivemos.

Vemos que é necessária, cada vez mais, a implementação de políticas contra a discriminação e o assédio dentro do ambiente jornalístico. E também é necessária a conscientização da repórter sobre o que está acontecendo, caso elas tenham o olhar do dominado impregnado com a visão do dominante, como diz Bourdieu, além da conscientização de seus pares na redação.

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