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Ativismos e efeitos na cultura

Simbioses entre cultura de compartilhamento e cultura de perversões

Muriel do Amaral

Resumo: A proposta desse artigo é de analisar como a cultura de compartilhamento construiu novas culturas perversas no meio social e também nas práticas midiáticas como discursos e ações que promovem a hierarquização, desmerecimento e desqualificação do outro. Para isso, serão analisadas ações que promovem a exposição da intimidade e privacidade de outrem sem a anuência dos envolvidos como novas perspectivas de voyeurismo contemporâneo.

Palavras-chave: Perversão; Compartilhamento; Cultura

Abstract: The purpose of this article is to analyze how the culture of sharing built new perverse cultures in the social environment and also in the media practices as discourses and actions that promote the hierarchy, demerit and disqualification of the other. In order to do this, we will analyze actions that promote the exposure of the privacy and privacy of others without the consent of those involved as new perspectives of contemporary voyeurism.

Keyswords: Perversion; Sharing; Culture

Introdução

Não raro, imagens de celebridades ou ilustres anônimos nus em momentos de intimidade ou de certa reserva circulam sem autorização pelas redes sociais, estampam blogs e sites na internet, além de serem compartilhadas em dispositivos móveis por aplicativos. A privacidade, intimidade e dignidades não são levadas em consideração em nome da promoção de gozo e prazer. Essa perspectiva é que o move esse artigo a apresentar como movimentos considerados perversos como o voyeurismo, sob alguns aspectos, são ressignificados e ganham outra conotação nos discursos e reverberações midiáticas. A cultura de compartilhamento associada às possibilidades de disseminação de conteúdos no espaço virtual e ao afeto que essas mensagens provocam entre os interlocutores sinalizam algumas nuances perversas que promovem apenas ações de espetacularização e exposição do outro.

A princípio, a cultura de compartilhamento seria uma alternativa para maior fluxo de conhecimento e a circulação de informação pelos propósitos ofertados dentro do universo digital. De fato, essa possibilidade é viável com a participação e interação entre vários interlocutores conectados em rede para a promoção do saber. Por outro lado, a força de compartilhamento também se torna uma estratégia para disseminar imagens e vídeos de pessoas em momentos de intimidades, o que gera constrangimento, humilhação e desqualificação do outro; nesse momento que se encontram as facetas das perversões. Essas manifestações são reverberadas em sites, blogs, redes sociais e aplicativos que propagam esses conteúdos oferecendo mais fôlego para os sinais perversos sociais, reconfigurando novas propostas de voyeurismo. As observações que eram feitas às escondidas por fechaduras em portas ou frestas em janela ainda permanecem, mas são armazenadas e reverberadas pelas ferramentas da cultura de compartilhamento.

Para elucidar sobre esse trânsito feito pelo sentido das perversões, o texto começa a abordar as primeiras considerações sobre perversões (LANTERI-LAURA, 1994), as contribuições da psicanálise que compreendeu as perversões como condições estruturantes do psiquismo humano (FREUD, 1996; LACAN, 2008). Além disso, como a noção de perversão foi alterada ao longo do tempo (ROUDINESCO, 2008) e as representações das perversões em âmbito social que serviriam para a instrumentalização e dessubjetivação do outro para a promoção de gozo (SZPANCEKOPF, 2011, 2002). Enquanto discursos imagéticos, a produção de imagem pode estar atrelada ao fomento de perversões pela estética e interface que são realizadas (BRUNO, 2013), sendo naturalizada na formação de discursos midiáticos.

As faces da perversão

É importante refletir sobre como alguns movimentos das perversões se alteraram ao longo do tempo, recebendo significações que orbitaram entre as práticas sexuais e valores morais. Lanteri-Laura (1994) pontua que a origem da palavra perversão advém do latim pervertere, que significa sair da norma, desviar. As primeiras aplicações da palavra datam, segundo o autor, eram de 1444 para explicar comportamentos e sujeitos que operavam fora do esquadro da normalidade, compreendendo normalidade os discursos convencionais e estruturantes legitimados socialmente.

As perversões ganha significações de repulsa e repugnância com o desenvolvimento do pensamento científico e positivista a partir do século XIX quando estabelecia práticas e dispositivos para selecionar, prover, hierarquizar quais seriam os comportamentos e atitudes considerados patológicos ou saudáveis. Essa classificação também assegurava uma relação de poder, como apontou Foucault (2012), por estabelecer uma ordem de saber e poder, isto é, houve a intenção de controle e disciplina sociais de corpos e subjetividades por discursos médicos, higienistas, pedagógicos e científicos com o propósito de oferecer uma sociedade economicamente produtiva e pretensamente sadia. Com isso, a incidência desses discursos no tecido social ocasionaria a distinção entre aqueles que seriam dignos de freqüentar a sociedade e aqueles que seriam excluídos dessas referências; esse mecanismo ofereceu condições para considerar alguns comportamentos, ainda mais de ordem sexual, como perversos, com a homossexualidade, por exemplo.

Foi também no século XIX que Sigmund Freud (1996) voltou seu olhar para compreender a perversão não apenas dentro do campo comportamental, mas também como uma condição estrutural do psiquismo humano, acreditando que há, como em qualquer outra estrutura psíquica (neuroses e psicoses) a relação com a sexualidade entre desejo e fantasia. Assim como nas neuroses (histeria e obsessão) e psicoses, as perversões empreendem uma relação uma relação de desejo porque visiona a fantasia de renegar a castração e, por isso, permanecer em constante gozo. De forma muito sintética, a castração simbólica realizada no complexo de Édipo, processo compreendido por Freud como a passagem do sujeito para o universo cultural e civilizado pela interferência do falo paterno, visa a interrupção do incesto entre mãe e criança, já que a criança concebe a mãe como sendo o primeiro objeto de desejo. Na moral perversa, o sujeito não reconhece a castração, a renega e adota o mecanismo de verleugnung (termo em alemão para renegação), pois seria muito traumático reconhecer a castração da mãe e, consequentemente, ser castrado pelo pai. Por isso o desafio das estruturas de poder e a necessidade de gozo em reconhecimento à mãe como a moral perversa. Essa perspectiva que Freud considerou como perversão o voyeurismo, exibicionismo, masoquismo, sadismo, entre outras manifestações porque ora não reconhece o outro em movimentos de alteridade ora extrapola a conduta oferecida pela lei social.

Sob esse olhar que Mannoni (1973) considera a fantasia do perverso pela frase “Eu sei, mas, mesmo assim...”, ou seja, o sujeito reconhece a sua transgressão e, a despeito disso, enfrenta as estruturas de poder e os mecanismos castradores para garantir o próprio gozo. Por essa perspectiva o sujeito busca incessantemente caminhos para alcançar o gozo e fugir das angústias causadas pela castração, nem que para isso haja a necessidade de fazer leis próprias para buscar o gozo, como apresenta Sibony (1987). O perverso arquiteta e promove leis próprias o que ele chamou de montagens; desafia as sinalizações de poder para conseguir seu gozo. Como exemplo são as adoções de fetiches, que no entendimento de Safatle (2010), seria um modo de representar a ausência fálica da mãe, garantindo, assim, o gozo pelo afeto que é desenvolvido entre o sujeito e o objeto ou prática, evitando as possibilidades de angústias.

Perversão no campo social

Enquanto práticas sociais, as perversões não perpassam necessariamente o campo da sexualidade, mas reconhece no outro o exercício de dominação, dessubjetivação e instrumentalização (SZPANCEKOPF, 2011). Na esteira do pensamento da autora, a perversão em âmbito social também produz leis próprias e montagens para justificar e legitimar o gozo, pois o sujeito perverso não suportaria a obrigação de seguir regras, entretanto essa estratégia abre brechas para manifestações de violência, preconceitos e discriminações (SZPANCEKOPF, 2002), e, consequentemente, para a prosperidade das perversões.

Essa dinâmica é o que edificou propostas e discursos autoritários em regimes totalitários nazi-fascistas que se alastraram pelo mundo na primeira metade do século XX. A perversão se encontra na montagem edificada para legitimar a morte de milhões de judeus, homossexuais, ciganos, deficientes físicos não reconhecendo esses grupos como dignos de pertencimento social. A intenção de promover a supremacia da raça humana elevou essa qualidade de montagem perversa a manifestações patológicas que ainda repercutem no espaço social em discursos de violência e hierarquização sociais mesmo depois de algumas décadas.

Ainda no âmbito social, Roudinesco (2008) afirma que pelas mudanças culturais, práticas e comportamentos considerados perversos perdem essa referência seja pela despatologização que passa pelo reconhecimento afetivo da subjetividade (como é o caso das homossexualidades), seja porque alguns comportamentos se tornaram comportamentos socialmente aceitos porque integram códigos culturais que foram alternados pelas práticas sociais. Todavia, é importante considerar que mesmo perdendo o sentido perverso, isso não quer quiser que a atitude não seja degradante. Essa referência é o que elege o compartilhamento de imagens de homens e mulheres nus ou em situação de intimidade a circular no espaço virtual, pode ser que seja uma nova forma de lidar com a sexualidade e com desejo, entretanto a exposição sem anuência entre todos os envolvidos é um signo claro de perversão.

Fotografar-se ou fotografar outrem e publicar essas imagens não é uma prática recente, nem a divulgação desse material em meios de comunicação como é o caso dos classificados da revista Private, da Galvão Editora, em que até hoje homens e mulheres, independentemente da orientação sexual, expunham-se nus na busca de parceiros sexuais. Todavia, com a cultura digital e de compartilhamento, o que antes estaria restrito a alguns veículos de comunicação, hoje não há limites para a divulgação dessas imagens. Blogs, sites, aplicativos em dispositivos móveis promovem a circulação de conteúdos íntimos sem restrições. Não raro é possível encontrar sites que disponibilizam pornografia com links de acesso a conteúdos eróticos amadores ou feito a partir de dispositivos móveis em banheiros públicos, vestiários e saunas como o site XTube, Xvideos, por exemplo. Conteúdos semelhantes podem encontrados em sites e blogs que oferecem gratuitamente vídeos e imagens de homens e mulheres nus, transando ou em situações de privacidade, sejam simuladas ou verdadeiras.

Esses sites disponibilizam perfis de usuários que registram suas próprias transas, há também vídeos capturados por webcams e também usuários e produtoras que gravam seus vídeos dentro da perspectiva amadora, simulando voyeurismo, desenvolvendo uma proposta diferente dentro da indústria da pornografia. Como é o caso da produtora The Maverick Men, em que o casal idealizador dispunha transas esporádicas na internet e hoje, além do site próprio para comercialização de acesso, o empreendimento se consolida como um dos perfis mais visitados no Xtube. (CLARKE, 2011). A captura e divulgação desses conteúdos trazem sinais perversos, sejam de exibicionismo ou voyeurismo, mas sendo assim povoam o espaço digital, trazendo, inclusive, lucratividade

A produção e divulgação de vídeos e fotografias íntimos são possíveis porque há uma cultura que privilegia e legitima essas ações entre circuitos de pessoas que desenvolvem afetos por esses conteúdos. A reverberação dessas imagens é sintoma da condição cultural contemporânea de propostas de afetos mais narcísicos e que validam o gozo como uma moral, a despeito da ausência de reconhecimento do outro. A exposição de imagens de outrem sem o consentimento daqueles que aparecem nela configura sinais de perversão na medida que não reconhece a intimidade e a dignidade alheias. O outro passa a ser a instrumentalização para o gozo narcísico e perverso daqueles que promovem a circulação desses conteúdos.

Além dessas imagens serem capturadas em momentos privados como banheiros públicos, saunas ou atém mesmo em espaços abertos, elas também podem ser frutos de revenge porn (pornografia de vingança). Esse movimento tem como alvo a desmoralização, principalmente de mulheres, por companheiros e ex-companheiros que disparam imagens íntimas de suas parceiras, um gesto atroz dotado de imensurável estupidez. Mesmo reconhecendo que há legislação própria para esse tipo de crime, que prevê privação de liberdade e multa, o sujeito renega essa condição em nome do prazer narcísico de autoafirmação como um gesto perverso para anular a dignidade do outro. Como foi o caso de uma adolescente de 16 anos que se suicidou em 2013, na cidade de Veranópolis (RS) ao ver que suas imagens com os seios amostra circulando pela internet125. A imagens teriam sido feitas pelo ex-namorado da garota e disparadas após o término do namorado. O mesmo final trágico teve outra adolescente em Parnaíba (PI) quando ela se matou após saber que o vídeo em que ela e mais um casal praticavam sexo estavam circulando na internet126.

Essa pesquisa considera que o avanço da distribuição e produção de imagens íntimas foi possível segundo três movimentos. O primeiro deles se refere quanto às mudanças na produção imagética que foram reconfiguradas com as tecnologias digitais. O processo fotoquímico de revelação e produção de fotografias deu espaço para os cálculos de algoritmos e combinações matemáticas surgindo as imagens digitais como propostas dentro do universo imagético. Com essa possibilidade de produção, as imagens podem ser feitas em dispositivos mais ágeis como celulares e tablets, o que promove a economia de tempo, espaço e trabalho, o que dispensaria, dependendo do caso, a necessidade de investimento profissional; qualquer um teria a possibilidade de produzir fotos e vídeos digitais, bem como distribuí-los.

Na esteira desse acontecimento, o outro movimento é o desmembramento da forma de produção, são os meios de reverberação. Com o advento da Internet 2.0 e a possibilidade de acesso à internet por dispositivos móveis promovem a disseminação de informações que não reconhece limites e barreiras quanto ao tempo e ao espaço. Dentro dessa alternativa, a cultura de compartilhamento de conteúdos e a participação de vários interlocutores na produção desses conteúdos proporcionaram também a cultura participativa. Esse movimento foi muito bem pensado por Jenkins (2008) ao que se refere à cultura de convergência. Para o autor, o desenvolvimento tecnológico, principalmente o digital, não ocasionaria a morte dos demais meios existentes (rádio, jornal, televisão, cinema, etc...), mas há uma simbiose entre esses discursos na produção de um meio mais interativo e a oferta de novas propostas de interfaces com os conteúdos produzidos.

Por essa nova proposta cultura, Jenkins também acreditou que as delimitações entre emissores e receptores seriam ressignificadas, o que de fato aconteceu com as novas propostas discursivas e os dispositivos portáteis como celulares, smartphones e tablets. As imagens, sons e demais conteúdos coletados desses positivos podem giram o mundo por questão de minutos, sendo reverberados em escalas planetárias. Desse modo que as imagens íntimas apresentam alcance praticamente infinito, sendo reverberadas em escalas que se encontram fora de controle, sem contar da facilidade de armazenamento e consulta, uma vez que são arquivos digitais

O último e terceiro passo, não menos importante, refere-se ao pensamento de Lacan (2008) sobre a relação com o gozo. Para ele, o gozo na cultura contemporânea torna-se praticamente uma questão de cunho moral, uma necessidade a ser seguida, praticada, cultivada e estimulada a despeito de qualquer recalque que possa intervir. A intenção de Lacan foi de perceber como as práticas e discursos de gozo e prazer encontrados na trama social não podem deixar de existir sejam pelo consumo exacerbado, pela necessidade inveterada de compras, pela compulsão alimentar ou por qualquer outra prática que provoque prazer. Como sintoma dessa condição, o prazer e o gozo, como aponta Kehl (2004), são apresentados nos discursos publicitários como inerentes à condição humana, acessíveis, além da fetichização dos objetos de consumo. Dentro da cultura de compartilhamento e perversão, como aponta Fernanda Bruno (2013), o prazer dessas imagens não está apenas em suas produções, mas também no disparo da captura e, também, da reverberação.

Ainda na esteira do pensamento da autora, essas imagens, consideradas por ela como sendo representações da estética do flagrante, povoam sites, blogs e são compartilhadas em redes sociais ou aplicativos de comunicação quase na ausência de interditos. É pertinente considerar que as imagens capturadas, segundo a estética do fragrante, não são apenas seriam nocivas, mas podem ser úteis em denúncias de irregularidades para fundamentar irregularidades administrativas e, assim, podem ser investigadas pela mídia ou autoridades competentes. Por outro, na divulgação de imagens íntimas e privadas, essas imagens carregam alto teor libidinal por serem propostas segundo uma condição voyeur, de especulação e percepção da intimidade do outro.

(...) a estética do flagrante é carregada de uma libido do instante cuja atenção recai sobre o inesperado e o incomum (...) O gozo do instante não é apenas o do clique e da captura do agora, já familiar desde a fotografia instantânea, mas também o da distribuição e divulgação imediatas, fazendo do instante capturado um instante partilhado, ubíquo, conectado. (...) São imagens em que o fortuito capturado se torna matéria de testemunho e uma observação que convocam o voyeurismo e a atenção vigente do espectador. Imagens que também divertem, entretêm, dão prazer; que promovem uma reversibilidade jocosa entre o anônimo e o célebre, o público e o privado, pois aplicam à vida corrente e às pessoas comuns o mesmo procedimento escópico e atencional (...). (BRUNO, 2013, p.107-108)

É importante considerar que a estética do flagrante atende também à necessidade de controle, vigilância e disciplina. Imagens coletadas pelo Google na intenção de oferecer mapas aos seus usuários e o acompanhamento de circuitos internos de televisão e vigilância podem ser contempladas segundo essa proposta estética. Bruno também nos lembra que a intenção de reter um momento pelas lentes do flagrante não é necessariamente novo, algo muito semelhante acontece nas fotografias de paparazzi sobre celebridades (como o caso emblemático da morte da princesa Diana, em 1997, em Paris), nas câmeras escondidas para a produção jornalística e também de entretenimento, além de toda programação dos mais diversificados reality shows nacionais e internacionais. Sob essa ótica, é pertinente considerar que os signos perversos que promovem a especulação da vida alheia, a invasão de privacidade, a cultura de compartilhamento em nome da transgressão de códigos morais estão longe de se exaurir.

A perversão da cultura de compartilhamento é nítida da divulgação de vídeos de procedimentos médico-cirúrgicos. Aquilo que poderia ser utilizado como material didático se torna uma ferramenta de desqualificação e humilhação do outro. Como exemplo, é o caso de um sujeito de Londrina (PR) que foi levado ao Hospital Universitário após ter introduzido via anal uma piramboia, uma espécie de peixe de água doce127. Alunos residentes do curso de medicina, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), instituição que o hospital como órgão suplementar, registraram a cirurgia e a divulgaram expondo a intimidade do paciente, sua sexualidade e sua dignidade; um homem casado e pai de família. Um sinal claro de perversão e humilhação. Aquilo que seria um momento de resguardar a privacidade, já que o paciente encontra-se em momento de vulnerabilidade, recebe o escárnio e o desmerecido aqueles que deveriam zelar pela saúde e bem-estar do paciente. Por essa atitude, é importante considerar a hierarquização construída entre o grupo que usufrui de privilégios e aqueles que, segundo a montagem estruturada, são dignos do descaso, muito semelhante ao que Foucault acreditava sobre a relação de saber-poder.

A exposição da intimidade e da privacidade do outro podem ser encontrados, de modo socialmente aceita também na publicidade, como foi o caso da campanha promovida pela marca de absorventes íntimos Always. Nas vésperas da semana de comemoração ao dia internacional da mulher, em 2015, um vídeo de alguns segundos mostrou uma mulher se levantando da cama enrolada em lençóis trajando apenas uma sumária peça íntima. A sanha causada foi por conta se a moça do vídeo era a apresentadora Sabrina Sato. Um dia após o “vazamento” do vídeo, a marca assume a autoria para lançar a campanha Juntas Contra Vazamentos e era mesmo a apresentadora estampando o vídeo. A intenção da campanha foi de promover o lançamento de um novo produto no mercado, um absorvente íntimo noturno que promete conter vazamento menstrual, e o encorajamento de mulheres a denunciar agressores que compartilharam vídeos e fotografias íntimas.

A proposta da campanha se apodera discursivamente justamente daquilo que se propõe a combater que são o compartilhamento de imagens íntimas, a invasão de privacidade e a desqualificação da dignidade e respeito à mulher. Perversa também é a montagem proposta pela marca de equipar o vazamento menstrual ao vazamento de imagens íntimas para a promoção de lançamento de um novo produto no mercado de consumo, e também da espetacularização sobre o corpo da mulher, mantendo a dinâmica da exploração dos atributos do corpo feminino em campanhas publicitárias, perpetuando a sua objetificação e instrumentalização para o gozo e consumo.

Sob outro exemplo, há a prática entre duplas, casais ou grupos, independente de orientação sexual, de compartilhamento de imagens contendo cenas de nudez ou prática sexual como novas possibilidades do exercício da sexualidade e desejo; assim foi denominado o movimento Manda nudes. Para apresentar o fenômeno como uma matéria jornalística, a revista TPM, da editora Trip, lançou em março de 2015 a campanha que teve o mesmo nome da prática. A intenção, segundo a revista, foi de ilustrar com imagens as consequências e os hábitos dessa prática dos leitores. A proposta não foi bem aceita pelo público em geral justamente pela exposição de imagens gratuita de pessoas sem o consentimento de todos os retratados. Abordar o fenômeno pelo viés do desejo é louvável até porque é uma prática do desenvolvimento da sexualidade e dos modos de prazer contemporâneos, todavia, esse tipo de pedido alude às possibilidades de exibição de pessoas em momentos de intimidade desprovida de anuência da divulgação. A nudez que ficaria restrita à intimidade ou a espaços previamente estabelecidos perde essa noção e passar a compartilhada.

Para quem deseja se expor anonimamente ou com o rosto revelado também pode usufruir dos serviços do site americano Cam4. O site consiste basicamente na disponibilidade de vários usuários espalhados pelo mundo que podem registrar suas transas, masturbação ou apenas apreciarem o comportamento daqueles que se dispõem a compartilhar sua imagem a desconhecidos. Não há restrições para gênero, identidade sexual ou desejo, qualquer um pode acessar ou manter um perfil no site. Para ver os usuários do site não é necessário o cadastro, todavia para interagir, comentar e até mesmo oferecer alguma quantia em dinheiro, os donates, a quem possa agradar, o cadastro é indispensável. Por 24 horas por dia em sete dias da semana, os usuários podem se exibir ou ver aquilo para saciar o desejo. Há também a possibilidade de ver imagens e baixar os vídeos produzidos, caso o usuário tenha disponibilizado.

A produção desses discursos imagéticos elenca as perversões a manifestações corriqueiras do cotidiano com muita naturalidade sem a necessidade de reflexão crítica. Além do prazer e gozo que essas imagens podem ofertar, há a possibilidade de usufruir dessas práticas e discursos para a obtenção de lucro, visibilidade, destaque, construindo referências que foram apropriadas pelo capitalismo como forma de tornar essa prática rentável e produtiva economicamente.

Considerações finais

A naturalização dessas ações faz da comunicação uma grande agenciadora para a ressignificação de valores e também dos conceitos enquanto práticas morais. Mesmo sendo atitudes que não traria quaisquer benefícios à coletividade, tão pouco à vida das pessoas expostas, constantemente fotos e vídeos de celebridades ou anônimos estampam matérias de cunho jornalístico em tom de exploração pelo sensacionalismo e espetacularização. A visibilidade ofertada por esses fatos não engrandece o espaço social e nem colabora com os movimentos de sociabilidades, pois promove exclusivamente a instrumentalização do outro para a promoção do gozo.

Em contrapartida, a reverberação da estética de fotografias íntimas torna-se possível que há uma relação de afeto por esses conteúdos. O desejo de averiguar, investigar, vasculhar a intimidade alheia é uma condição motriz para promover atos de perversão porque não percebe-se no outro o limite da invasão, tão pouco sua subjetividade e reconhecimento social. A nova percepção de voyeurismo ganha tom de naturalidade e convencionalidade quando imagens íntimas são divulgadas no espaço social e compartilhadas em redes sociais ou em grupos de aplicativos.

A intenção desse artigo não é de demonizar as práticas de compartilhamento e as novas tecnologias que estão dispostas e afirmar que toda ação com esse propósito e a partir de dispositivos digitais promovem perversões. Todavia, é importante como alguns códigos se transmutam para justificar e ratificar as práticas e discursos perversos, oferecendo montagens para legitimar o desvio da lei em nome do gozo. A cultura de compartilhamento abre brechas para ações de cunho perverso. A saída desse imbróglio não está na proibição ou contenção do uso de dispositivos de compartilhamento, mas no afeto que é sugerido; o que cabe à sociedade a reformulação do sentido da cultura de referências narcísicas e perversas para o incentivo à coletividade em movimentos de alteridade.

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