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Efeitos na prática jornalística

Wikileaks e as ferramentas alternativas de tecnologia como práticas jornalísticas: as novas formas de resistência ativista na Era da Informação

Marina Nossa Neto55

Plínio Marcos Volponi Leal56

Resumo: Este trabalho apresenta o advento do WikiLeaks e enfatiza o seu papel na luta pela transparência de informação na Internet. Atualmente, o WikiLeaks é usado tanto como um destino de compartilhamento de documentos como uma fonte de informação para estabelecer uma ação estratégica contra a guerra do sigilo. Na Era da Informação, discute-se a confidencialidade dos recursos de tecnologia digital contra questões de interesses diplomáticos por parte dos governos. A contribuição do WikiLeaks no episódio Cablegate, abriu debates em torno da utilização de ferramentas alternativas de tecnologia digital e do jornalismo tradicional com táticas de ativismo na internet, causando mudanças na técnica e ética jornalística. Desde então, o WikiLeaks se tornou um ator crucial no atual cenário do jornalismo investigativo.

Palavras-chave: WikiLeaks. Cablegate. Ciberativismo. Internet. Transparência.

Abstract: This paper exposes the advent of WikiLeaks and emphasizes its role in the fight for transparency of information on the Internet. Nowadays, WikiLeaks is used as a destination document sharing and as a source of information to establish a strategic action against the war on secrecy. In the Information Age, it’s been discussed the confidentiality of technology resources against digital diplomatic interests issues by government. The contribution of WikiLeaks in the Cablegate episode, opened debates on the use of alternative tools of digital technology and traditional journalism tactics of activism on the Internet, causing changes in the technical and ethical journalistic. Since then, WikiLeaks has become a crucial actor in current scenario of investigative journalism.

Keywords: WikiLeaks. Cablegate. Cyberactivism. Internet. Transparency.

Introdução

Nunca a informação fluiu tão rápida e foi tão compartilhada como ultimamente. Até mesmo as informações confidenciais estão acessíveis a todos. Há, atualmente, uma grande discussão sobre privacidade na Internet. Isso porque, a Internet possibilitou um fácil acesso a dados e informações. Há aqueles que acreditam que estão sendo invadidos por tamanha exposição, mas há também aqueles que defendem que “informação é poder”. Neste artigo, apresentamos como se dá a segunda opção, ou seja, como a Internet pode “democratizar” o poder.

“Uma guerra furiosa pelo futuro da sociedade está em andamento. Para a maioria, essa guerra é invisível”. Esse é o alerta de Julian Assange (2013, p.9). “De um lado, uma rede de governos e corporações que espionam tudo o que fazemos. De outro, os cypherpunks, ativistas geeks virtuosos que desenvolvem códigos e influenciam políticas públicas. Foi esse o movimento que gerou o WikiLeaks” (ASSANGE, 2013, p. 9). O WikiLeaks é um exemplo da regulação e distribuição de informação nas sociedades conectadas em redes.

Neste trabalho, expomos o efeito das novas formas de resistência virtual em busca da transparência de informação na Internet, exclusivamente a partir da exposição de conteúdos sigilosos divulgados pelo WikiLeaks. Esta pesquisa está centrada nos movimentos sociais orquestrados por meio da Internet, na luta pela democracia na Internet e nas novas práticas jornalísticas. A primeira tarefa deste trabalho foi explorar teoricamente o limbo do ciberespaço, com noções pouco difundidas sobre o Ciberativismo e a participação de agentes promovedores da transparência de informação na Internet. São conceitos importantes a serem considerados quando se lida com a democracia na Internet.

Como defende Ugarte (2008, p.57), “quanto mais alto estivermos na pirâmide da informação, menos dependeremos de outros para receber informações e mais possibilidades teremos de transmiti-las”. A premissa básica citada por Ugarte (2008) é a compreensão de uma interatividade na Internet que atribui a forma de distribuição de comunicação a partir de ações de fenômenos sociais em desenvolvimento. Desta forma, enfatizaremos duas organizações: Hacktivismo e o WikiLeaks. Depois, apresentamos como o fenômeno comunicacional digital facilitou a disseminação de informação sigilosa pela Web e o aumento do poder vinculativo de informações sem precedentes.

A atuação do ciberativismo

O ciberativismo é conhecido como o uso da Rede Mundial de Computadores (World Wide Web)57 para fornecer informações contra hegemônicas e inspirar movimentos sociais. É um fenômeno recente, em que as novas tecnologias de informação favorecem outras formas de mobilizações virtuais. Os movimentos instituídos por meio do ativismo na internet são centralizados em questões específicas, com a intenção de influenciar a sociedade na exigência pela liberdade de expressão.

O ciberativismo se confunde com a própria expansão da rede mundial de computadores. Ele influenciou decisivamente grande parte da dinâmica e das definições sobre os principais protocolos de comunicação utilizados na conformação da Internet. É possível posicionar os diversos grupos e atividades do ciberativismo situados mais à esquerda ou mais à direita. Todavia, esse enquadramento tradicional, que orientou a divisão política das ações e ideologias no mundo industrial, encontra crescente dificuldade operacional diante de muitas ações na sociedade informacional. (AMADEU, 2010, p.31).

Os movimentos sociais virtuais se difundiram a partir de ações do Ciberativismo, que utiliza ferramentas tecnológicas digitais com uma interface acessível. Para exercer ciberativismo, basta utilizar qualquer dispositivo móvel ou plataforma com acesso à Internet. As mídias mais usadas atualmente para o ciberativismo são: o Twitter, o Facebook, o YouTube e o WhatsApp. Essas ferramentas digitais permitem que as pessoas estejam conectadas instantaneamente em uma rede de comunicação e têm a oportunidade de disseminar a informação local para um grande público, com a potencialidade de esse conteúdo ser viralizado.

As redes virtuais são sistemas organizacionais capazes de reunir indivíduos e entidades de forma democrática com objetivos populares, com o propósito de estabelecer o trabalho colaborativo e participativo (CASTELLS, 2011). Assim, a difusão das novas tecnologias de informação contribuíram para uma transformação da plataforma Web 2.058. Segundo Primo (2013), com o aparecimento de blogs, a atividade de publicação de conteúdo (hipertexto, hipermídia) na internet foi facilitada, não sendo mais necessário o domínio de código HTML, tal como ocorria nas antigas home pages.

O hacktivismo como resistência

O ano de 2003 ficou marcado por ações de ativismo virtual (também denominado hacktivismo) e pela legitimação de operações na internet que visavam defender direitos humanos e liberdades individuais. O grupo de hacktivistas conhecido como Anonymous auxiliou mobilizações pelo mundo como forma de resistência contra governos e corporações que ameaçam a transparência de informação e liberdades civis. Além disso, a cooperação entre hacktivistas e cidadãos egípcios ficou nítida a partir dos protestos para a retirada do presidente Hosni Mubarak, que tinha planos de implantar um regime ditatorial no país, após revolução democrática no Oriente Médio, em 2010.

A origem do termo Anonymous se desenvolveu a partir de um site de imageboard59, o 4Chan60. A estrutura deste webblog é constituída em fóruns de visualizações de imagens e grupos específicos de discussões, com a garantia do anonimato, como a seção “/b/” 61 (diversas temáticas). A especificidade da incógnita dos usuários era utilizar o nickname como “anonymous”, sendo que seu uso transformou algumas atividades virtuais em ações de trolling62.

A partir de então, o grupo Anonymous edificou interesses individuais de cada usuário para algo idealizado, tornando-se responsáveis por ações políticas a partir de ações coletivas.

É mais importante o desenvolvimento de ferramentas que tornem claramente visível a possibilidade do hacking social aos indivíduos, do que qualquer convocação que possamos organizar. O ciberativismo como filho da cultura hacker, se reitera no mito do “faça você mesmo”, da potência do indivíduo para gerar consensos e transmitir ideias em uma rede distribuída (UGARTE, 2008; p.57).

Neste contexto, as construções de identidades anônimas se tornaram uma forma de representatividade de resistência na internet ao longo dos anos. De acordo com Coleman (2011), as intervenções políticas e os protocolos da Internet desempenham um papel central na definição do percurso do ativismo na internet. Existem hackers que possuem seus trabalhos politicamente canalizados, contemplados como atores privilegiados no cenário atual da política da Internet.

Na visão de Alexandra Samuel (2004) o hacktivismo é composto pela cooperação de políticas transgressoras de desobediência civil com as tecnologias e técnicas de hackers de computador. O resultado da ação orquestrada por hackers é a difusão de um repertório digital da política de infratores da era da informação, aplicada para uma gama de causas políticas e sociais. Para Castells (2011), as redes digitais de comunicação tornam-se a porta de entrada para o exercício de contrapoder, pois permitem que diversos atores participem ativamente nos processos de comunicação global. Assim como em qualquer outra forma de ativismo digital, os hacktivistas adotam táticas que refletem na transformação da perspectiva política e social.

Ao contrário da maioria das formas de ações políticas, que exigem certo grau de cooperação em massa, o hacktivismo pode ser conduzido por um único agente (SAMUEL, 2004). Deste modo, o hacktivismo é mais do que um fenômeno intrigante: é uma oportunidade para examinar questões que são particularmente exploradas e comandadas por um único indivíduo.

O Wikileaks no cenário comunicativo

A partir do ano de 2006 até os dias atuais, o ciberativismo ganhou força e popularidade com o WikiLeaks, que se tornou famosa por facilitar denúncias e publicações de documentos confidenciais e sigilosos. A organização foi fundada em 1999 pelo jornalista e ciberativista Julian Assange, considerada uma plataforma sem fins lucrativos, marcando um importante espaço na história da luta pela transparência de informação na Internet e das mídias tradicionais.

Wiki significa rápido em havaiano, é o nome que se dá a toda uma família de programas e serviços utilizados para escrever livros e disponibilizar conteúdos de mídia de forma colaborativa, inclusive abertos às contribuições dos usuários (UGARTE, 2008, p. 93).

Já o termo Leaks pode ser traduzido para o português como “vazamento”. Sendo assim, Wiki + Leaks significa que é uma forma de vazamento rápido. No caso da organização WikiLeaks, ao considerar revelar informações de interesse público, para ser eficaz, é necessária a compreensão dos aspectos práticos e políticos.

De acordo com Brian Martin (2015)63, o objetivo dos denunciantes é o “vazamento” como interesse público. Muitos políticos e burocratas propositalmente deixam suas informações transparentes para a mídia, muitas vezes, com finalidade econômica ou política partidária. Tais vazamentos são raramente investigados e nunca processados, mesmo quando são ilegais. Por isso, o “leaking é considerado uma maneira de investigação anônima, que não depende de organizações políticas para operar” (MARTIN, 2015).

Nesse período, portanto, havia duas organizações de hacktivismo e ciberativismo principais: o Anonymous que incentivou debates sobre os ataques a sites e servidores por meio do sistema de DDoS64 como uma tática de protesto legítimo; e o WikiLeaks que fomentava reflexões muitas vezes acaloradas sobre a nova face do jornalismo investigativo. Isso porque, Assange utilizou recursos de tecnológicos como difusores de informações confidenciais para grandes meios de comunicação mundial.

A primeira operação do WikiLeaks ocorreu no Quênia em 2008, quando a organização obteve numerosas cópias de documentos confidenciais que envolvia a investigação da corrupção do ex-presidente Daniel Arap Moi65 e mais tarde, publicados pelo WikiLeaks. Julian Assange afirmou mais tarde que a publicação resultou em uma mudança de 10% no padrão de votação do Quênia. Conforme o intuito desta operação, a liberação de documentações secretas conduziu a colaboração da organização como uma ferramenta de transparência de informação para aperfeiçoar o modelo de veiculação alternativa de informações, e com cada novo vazamento, a eficácia do WikiLeaks66 torna cada vez mais evidente pelo mundo.

Christofolleti e Oliveira (2011) afirmam que a colaboração de veículos convencionais com o WikiLeaks surgiu no contexto das atuais relações de parceria entre veículos tradicionais produtores de informação qualificada. Partindo dessa perspectiva, o WikiLeaks foi elevado ao reconhecimento de ser uma fonte de informação crível com o apoio da mídia, houve um aumento da velocidade de divulgação de informação e compartilhamentos de conteúdos para uma disseminação ampla.

Há veículos de comunicação impresso tradicionais que oferecem conteúdos online exclusivos, os quais favorecem sua credibilidade na prática jornalística digital. O mecanismo de múltiplas plataformas jornalísticas ficou evidente no episódio de vazamentos de telegramas que continham informações confidenciais dos Estados Unidos sobre fatos e relatos da guerra do Iraque e o uso militar de drones contra cidadãos. O episódio Cablegate, como foi conhecido, se deu por meio de uma parceria do WikiLeaks para que uma série de documentos secretos fossem publicados pelos veículos de comunicação como: o New York Times, o The Guardian, o Der Spiegel, a Folha de São Paulo, entre outros jornais. A divulgação em massa contou com a união de esforços políticos, jornalísticos e tecnológicos na luta do dever de informar, se tornando assim o primeiro vazamento da história de informações sigilosas da internet. Foi uma conquista para o ciberativismo e para sua legitimidade.

(...) uma das novidades do fenômeno WikiLeaks foi a clara percepção de que redes de Ciberativistas enfrentam redes políticas que articulam Estados e grandes corporações, bem como mobilizações conservadoras que aglutinam cidadãos comuns (SILVEIRA, 2011; p. 160).

Na concepção de Silveira (2011), o WikiLeaks se alia a uma política do escândalo designada em deslegitimar ações que ameaçam a liberdade e transparência de informação na internet e que favoreçam no enfraquecimento dos indivíduos nos debates cruciais e menos espetaculares, com a necessidade de incrementar uma solução democrática ao invés de autocrática.

Após o Cablegate, o WikiLeaks publicou em seu site, em 26 de Julho de 2010, 92.00067 documentos relativos ao envolvimento dos Estados Unidos no Afeganistão, entre janeiro de 1994 e dezembro de 2009. Tal fato também trouxe legitimação para as ações do ciberativismo e novas práticas alternativas de jornalismo. No dia em que o WikiLeaks liberou os documentos, o The New York Times publicou um comunicado à imprensa explicando em detalhes a sua decisão de expor uma série de artigos com base em sua visualização dos documentos vazados pela organização. No mesmo ano em 2010, a revista alemã Der Spiegel também publicou no site oficial, uma nota que descreve sua decisão de publicar artigos referidos a divulgação em massa de documentos sigilosos.

A Internet é uma rede que amplia o poder e potencial de todos os outros. E é por isso que acreditamos que é fundamental que os seus usuários têm a garantia de certas liberdades básicas. Liberdade de expressão é a primeira delas. Esta liberdade não é mais definida exclusivamente pelo fato de os cidadãos poderão ir à praça da cidade e criticar seu governo, sem medo de represálias. Blogs, e-mails, redes sociais e mensagens de texto têm aberto novos fóruns para troca de ideias e tem criado novos alvos para a censura. (SIFRY, 2011, p. 17, tradução nossa) 68.

Lynch (2008) afirma que para a segurança das publicações, tanto nos sites espelhos do WikiLeaks como no site original, é necessária uma barreira criptográfica que assegure a estabilidade dos documentos vazados, sem a violação de jurisdições. Desta forma, é importante ressaltar que, o interesse do Wikileaks e o seu papel como ferramenta alternativa de comunicação, causou implicâncias na diplomacia de diversos países após o Cablegate, desencadeando uma série de debates contra ações eficazes de defesas das liberdades básicas na sociedade em rede.

Desde o surgimento do WikiLeaks, um debate ético tem se intensificado na mídia. Não apenas sobre as implicações éticas do WikiLeaks, mas também as implicações éticas da prática jornalística – de noticiar ou não noticiar – que tornou o trabalho do jornalista como os olhos e ouvidos do público sobre eventos significantes. Algumas perguntas permeiam este fato: “É ético divulgar documentos sigilosos? E se eles foram obtidos de forma lícita? E se foram vazados de forma ilícita? Até onde vai a ética jornalística?”.

As ações do Wikileaks e a resistência do ciberativismo

Selaimen (2011) afirma que o WikiLeaks possui a representação do primeiro conflito mantido pela ordem absoleta implementada na sociedade da informação e a cultura da Internet. Partindo do contexto de profundidade da guerra pelo controle do Estado sobre a Internet, a distribuição de poder nas sociedades em redes de comunicação é operada em variados níveis, desde a arquitetura de redes e softwares livres aos processos de discussões de políticas públicas em plano nacional e global.

É possível afirmar com toda segurança que uma das grandes implicações do fenômeno Wikileaks, mais do que as revelações sobre os vazamentos, foi o esclarecimento da opinião pública internacional de que as grandes corporações podem tentar anular a liberdade de expressão pelo controle que possuem da infraestrutura de comunicação, dos backbones por onde os fluxos de informação transitam. Estas técnicas não são novas, mas elas não estavam tão evidentes para a imprensa e para os segmentos da sociedade civil interessados em política (SILVEIRA, 2011; p. 160).

O WikiLeaks foi apresentado ao espaço comunicacional como algo inovador e democrático. Seu funcionamento, segundo Christofoletti e Oliveira (2011), opera a partir da necessidade de um jornalismo que envolve transparência e facilidade de contato direto com as fontes de informação; com o aumento da velocidade de acesso e edição; vasta quantidade de arquivos e bancos de dados que podem ser acessados online e ferramentas de pesquisa e recursos flexíveis para interatividade e publicação de conteúdos. Assim como Rosner (2011) declara que o WikiLeaks conseguiu agir de forma ilegal e transgressora com relação a legislações de alguns países, expondo informações que capacitavam um nível confidencial crítico com relação ao advento da era da informação no espaço da política internacional.

Os jornalistas do The Guardian, Leigh e Harding (2011), citam no livro “Inside Julian Assange’s War on Secrecy” que o episódio de vazamentos de telegramas que comprometeram os atos de guerra pelos Estados Unidos - o Cablegate - provou que novas formas de colaboração podem ser administradas entre veículos convencionais, que têm a praticidade jornalística. Antes mesmo do Cablegate, tornou-se viral as imagens de um helicóptero Apache dos Estados Unidos em posição de ataque à longa distância contra civis e matando inclusive dois jornalistas em 2010, e os da Guerra do Iraque, em outubro do mesmo ano, mostrando falhas em operações e consequente encobrimento de informações comprometedoras contra a mídia global. A realidade é que o WikiLeaks contribuiu para a transformação dos procedimentos de pesquisa e publicação de conteúdos com o sigilo da comunicação diplomática em diversos países, o que gerou cidadãos conscientes e interessados na realidade política de seus Estados e respectivos desdobramentos da transparência de informação (OLIVEIRA, 2011).

O WikiLeaks vem se tornando útil na concepção de repórteres investigativos como uma fonte de vazamentos de credibilidade por meio do web site e a habilidade de seus colaboradores para coletar informações de interesse jornalístico (LYNCH, 2008). Desta forma, defendemos que o WikiLeaks é uma ferramenta alternativa para o jornalismo investigativo em ascensão, não só por causa de seus conteúdos, mas por suas práticas, formas e ideias que estão intimamente entrelaçadas em um novo tipo de plataforma de disseminação de informação, processo esse que se torna viável ao longo do surgimento de tecnologias. Esses recursos os jornalistas estão começando a descobrir com cautela.

Os desdobramentos são imprevisíveis e podem recrudescer tentativas de interferência na estrutura não hierárquica da Internet e podem criar um polo centralizador do fluxo informacional – o que viabilizaria seu formato democrático. O ciberativismo delineia um cenário intrigante, em que a liberdade de informação tende a ser uma das grandes batalhas deste século (FERREIRA DA CRUZ, 2012; p. 94).

É importante destacar que a organização WikiLeaks simboliza o esclarecimento da opinião pública de que grandes corporações podem tentar anular a liberdade de expressão em processo de reivindicação pelo controle que possuem da infraestrutura de comunicação. Foram registrados acontecimentos em torno da organização que, com a colaboração dos hackers do coletivo Anonymous, conseguiram evitar a intervenção das grandes corporações na tentativa de impedir que a política de exposição de informações do WikiLeaks se tornasse popular na Internet. O Anonymous articulou a “Operação Payback”69, reunindo em canais de comunicação descentralizados pela internet, como o IRC70 e no próprio Twitter, membros do movimento do hacktivismo para aumentar o acesso aos servidores do PayPal, Mastercard e Visa, até o momento em que as máquinas não consigam mais processar as solicitações de acesso e travem.

Para Primo (2013), as mixagens de ideais unidos por um objetivo clamam pela luta e descriminalização de movimentos articulados pela rede por uma sociedade ameaçada pelas novas formas de controle da rede. É possível constatar que a decomposição das redes de comunicação enfrentam interesses opostos, o que ocorre no novo caso do WikiLeaks em se unir entre hackers e cidadãos com um objetivo comum: alertar o mundo sobre a seriedade do controle privado sobre a Internet.

A liberdade de expressão e informação na Internet

A liberdade de expressão é um direito universal. “As diversas manifestações conflitantes permeiam o processo colaborativo enquanto forma de construção de conhecimento do coletivo e próprio” (PRIMO, 2013; p.185). O direito de se expressar permite um debate sobre os valores políticos, sociais e morais, e incentiva a atividade artística e acadêmica livre de inibições. Contudo, o a liberdade de expressão pode ser limitada pela visão homogênea e tendenciosa dos fatos, favorecendo na formação de um monopólio midiático e controle absoluto das novas ferramentas de tecnologia.

O discurso on-line provavelmente existirá em uma zona de penumbra, semi-livre, às vezes capaz de ameaçar instituições poderosas e outras vezes sujeitas a seus caprichos. O que é necessário é haver uma discussão mais intensa de como a Internet pode se tornar uma arena pública, genuinamente livre, uma praça da cidade, onde qualquer um pode se expressar. Ou, para ser mais preciso uma Internet cuja arquitetura subjacente é realmente livre do controle governamental ou do controle corporativo, e também descentralizada e incontrolável como a vida é em si mesma. (SIFRY, 2011, p. 22, tradução nossa) 71.

Conforme Sifry (2011), a visibilidade de conteúdos na internet e o equilíbrio instigado do indivíduo molda uma forma de liberdade de expressão para que o público esteja apto a transformar o ciberespaço em uma área fortemente ligada às ideias fundamentais de um agendamento público na internet. Ugarte (2008) aponta a veiculação de informação livre como um propósito para o exercício e difusão do discurso político e a importância de colocar à disposição pública ferramentas que devolvam às pessoas poder e a visibilidade que hoje são monopolizadas pelas instituições políticas, como emissoras de rádio e TV.

Por uma internet livre não implica em uma sociedade transparente, onde vizinhos possam observar uns aos outros por meio de uma tela e um mouse. A partir deste contexto, é necessário um controle informacional, um conjunto de leis e normas claras que definam os tipos de informações registradas, os prazos em que permanecerão gravadas, as razões que permitam a consulta e principalmente, o cruzamento entre os bancos de dados, para que sejam garantidos os direitos fundamentais dos cidadãos sem que sua privacidade seja exposta.

Depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, a NSA72 (National Security Agency) desenvolveu um sistema de espionagem para ter acesso a todo tipo de dado transmitido pelas empresas de telecomunicações, inclusive por meio da internet. As escutas funcionaram sem autorização judicial entre 2002 e 2006. A existência do programa de coleta de dados telefônicos foi objeto da primeira reportagem do jornalista Glenn Greenwald73 realizada com base nos documentos entregues pelo ex-técnico da NSA, Edward Snowden74.

A partir desta matéria publicada pelo jornal britânico The Guardian no dia 5 de junho de 2013, a NSA iniciou uma série de revelações que mostraram o alcance global do serviço de espionagem americano. Quanto mais conteúdos eram divulgados, os números se tornavam mais impactantes. No dia 11 de junho de 2013, uma reportagem do The Guardian mostrou que apenas no mês de março a NSA havia coletado 97 bilhões de dados de redes de computadores em todo o mundo.

Hoje isso é feito por todo mundo e praticamente todos os Estados, em conseqüência da comercialização da vigilância em massa. E ela tem sido muito mais totalizadora agora, porque as pessoas divulgam suas ideias políticas, suas comunicações familiares e suas amizades na internet (ASSANGE, 2013; p.43).

De acordo com Assange (2013), o século XXI está marcado com a guerra virtual travada entre o poder dessas informações coletadas por “insiders” – Estados políticos paralelos de informações que estão começando a se desenvolver com o processo de censura da transparência de informação, elaborando conexões entre si e com o setor privado – contra um domínio de informações cada vez maior, com a internet operando como uma ferramenta comunitária para que a humanidade mantenha um canal para comunicação.

A descentralização da informação na Internet

Nos últimos anos, houve o desenvolvimento contínuo nas ferramentas de compartilhamento de conteúdos na rede. Para que elas fossem aplicadas, foi necessária uma revolução informacional. Conforme Castells (2011), as redes constituem a nova estrutura social de nossas sociedades, e a difusão da lógica de redes virtuais modifica de forma considerável a operação e os resultados dos processos produtivos e de experiência, poder e cultura.

É possível ser dito que a Internet se constitui uma ferramenta imprescindível para as lutas sociais contemporâneas, já que facilita as atividades, pode unir e mobilizar pessoas e entidades de diferentes localidades em prol de uma causa local ou transnacional, bem como quebrar o monopólio da emissão e divulgar informações “alternativas” sobre qualquer assunto (REGITANO, 2003, p.02).

Em 2011, o WikiLeaks era praticamente desconhecido pelas plataformas de vinculação de conteúdos. A organização foi considerada inquietante para os jornalistas desde a sua eclosão no cenário do comunicativo, pois representa uma mudança radical na forma como a informação é recolhida e distribuída no cenário da mídia (CHRISTOFOLLETI E OLIVEIRA, 2011). “O WikiLeaks aponta, ainda, para a necessidade de o jornalismo retomar e reafirmar a liberdade em sua dimensão mais profunda: enquanto princípio e direito humano fundamental e de todos” (CHRISTOFOLETTI, OLIVEIRA, 2011, p. 126).

Depois do ocorrido com a mídia impressa como o The Guardian e Der Spiegel, em relação à colaboração com o WikiLeaks, a fim de contribuir com a ética jornalística, os proprietários dos veículos têm o direito de fazer julgamentos sobre quais documentos veicular e se é necessário ou não mencionar as fontes com base no interesse público e o risco de infligir danos aos inocentes. Uma das consequências desta nova realidade de cruzamento de informações armazenadas em banco de dados é a crescente dificuldade de preservar o sigilo de dados bancários e o sigilo das comunicações diplomáticas por meio de emails confidenciais. O vazamento de informações pelo WikiLeaks vem revelando condutas discutíveis.

O ativista e programador alemão Andy Müller-Maguhn, relata no livro Cypherpunks (ASSANGE, 2013, p. 43) que “houve um investimento gigantesco em vigilância porque as pessoas no poder temiam que a internet pudesse afetar seus métodos de governança”. Um dos seus objetivos é notável o escândalo político que resultou no enfraquecimento da reputação de instituições, o que resultou na desconfiança dos cidadãos em relação aos governantes. Essa conexão da mídia com a opinião pública do mundo inteiro foi favorecida pelo papel central de plataformas independentes, consideradas como o backbone75 de movimentos que surgem da rede para as ruas.

Com frequência, o impacto que o WikiLeaks vem causando nas instituições locais e governos municipais concede a experiência de compartilhar os princípios da democracia aos cidadãos a partir do ciberespaço.

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