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Efeitos na prática jornalística

Orientações e inflexões sobre privacidade em manuais internacionais de ética jornalística

Rogério Christofoletti 50

Ricardo José Torres51

Resumo: A tensão entre privacidade e publicidade é uma das mais recorrentes no jornalismo como atividade profissional. Enquanto grandes corporações transnacionais se beneficiam da economia da intrusão (SILVEIRA, 2016) e do capitalismo de vigilância (FUCHS; TROTTIER, 2016), jornalistas e cidadãos comuns ainda estão desnorteados no que se refere às regras para garantir fronteiras nítidas entre o que é da esfera privada e o que pode ou deve ser tornado público. Tendo em conta preocupações deontológicas, este artigo investiga como o conceito de privacidade e seus subtemas funcionam naqueles documentos. Para responder a tais questões, analisamos dez manuais de ética jornalística das últimas três décadas, não restritos ao uso por empresas e que tenham alcance internacional. Observamos aspectos como a visibilidade, o aprofundamento na reflexão e as recomendações práticas aos profissionais.

Palavras-chave: Privacidade; Manuais de Jornalismo; Ética Jornalística

Abstract: The tension between privacy and publicity is one of the most recurrent in journalism as a professional activity. While large transnational corporations benefit from the economy of intrusion (SILVEIRA, 2016) and vigilance capitalism (FUCHS; TROTTIER, 2016), journalists and ordinary citizens are still bewildered about rules to ensure clear boundaries between what is Private sphere and what can or should be made public. Taking into account deontological concerns, this article investigates how the concept of privacy and its subtopics work in those documents. To answer these questions, we have analyzed ten journalistic ethics manuals from the last three decades, which are not restricted to use by companies and which have international reach. We observe aspects such as visibility, deepening reflection and practical recommendations to professionals.

Key words: Privacy; Journalism Manuals; Journalism Ethics

O jornalismo é uma atividade pródiga em autodefinição, seja demarcando os limites do campo de conhecimento e da atuação dos profissionais da área, seja conectando-o com a sociedade e seus movimentos constantes. Numa dessas tentativas de conceituação - comumente atribuída ao experiente jornalista Heródoto Barbeiro, mas que também tem variantes sob outros autores - cabe ao jornalismo mostrar para uma parte da sociedade o que a outra está fazendo. Neste sentido, jornalistas e seus veículos deveriam se ocupar de trazer à tona o que está oculto ou aquilo que tem circulação restrita. Podem ser informações desconhecidas, pouco conhecidas, ainda carentes de complementação ou mesmo reservadas ou secretas. Isto é, de forma bastante simples e clara, a definição em questão coloca o jornalismo como uma atividade fronteiriça das esferas pública e privada. Informar requer que os profissionais da área transitem constantemente entre sentidos aprisionados numa lógica de retenção e sentidos que precisam/impõem-se/desejam ser publicizados.

Invariavelmente, nas redações, na academia e no senso comum, é o “interesse público” que se coloca como a força motora que promove esses movimentos de conversão (KOVACH & ROSENSTIEL, 2003; CAMPONEZ, 2011; MCQUAIL, 2012, entre outros). É em nome dele que repórteres pressionam suas fontes para falar e que veículos costumam justificar suas ações. O “interesse público” se apresenta como um fator tão determinante no jornalismo que é ao mesmo tempo invocado em códigos deontológicos como uma base de conduta dos jornalistas e apontado como justificativa para que se violem normas éticas (CHRISTOFOLETTI & TRICHES, 2014).

Não é exagero dizer que os dilemas em torno da privacidade de pessoas e organizações é uma zona de atrito ético fundante no jornalismo. Se ele se coloca como uma atividade de fundo social que pretende fazer emergir sentidos, versões e conceitos do contemporâneo, essa mesma atividade se digladia a todo momento nas disputas pelo que deve ser tornado comum a todos – público! - e o que pode ser descartado, para que circule apenas em órbitas restritas.

A privacidade é um problema

Existem registros de preocupações com a privacidade desde o Império Romano (ARIÈS & DUBY, 1990), mas tal ideia só começou a ser moldada da forma como a entendemos atualmente a partir do século 18 (VINCENT, 2016).

Ela é, então, um produto social, que muda com o tempo e varia conforme a geografia e os valores locais. É uma norma social que tem valor moral tanto por contribuir para o desenvolvimento da individualidade quanto para a manutenção do tecido social. É também um direito consagrado em protocolos internacionais – como a Declaração Universal dos Direitos Humanos – e em legislações nacionais, como o Righ of Privacy (1974) nos Estados Unidos ou a Constituição Federal brasileira de 1988.

De um modo geral, leis de proteção à privacidade dedicam-se a preservar dados pessoais dos cidadãos. Na legislação internacional em vigor, destacam-se ainda o Freedom of Information Act, o Fair Credit Reporting Act, o Bank Secrecy Act, o Trade Secrets Act, o Family Educational Rights and Privacy Act, o Fair Credit Biling Act, o Equal Credit Oportunity Act, o Right to Financial Privacy Act e o Eletronic Communications Act, todos nos Estados Unidos. No Reino Unido, em 1984, surgiu o Data Protection Act, seis anos depois de lei semelhante francesa. Em 1977, a Alemanha também editou sua lei de proteção de dados (cf. RIBEIRO, 2003).

A definição da privacidade como um direito tem data bem definida, ao menos no ocidente: 1890, a partir de um artigo de Brandeis & Warren na prestigiada Harvard Law Review. Para os autores, a privacidade é o direito de ser deixado em paz (“the right to be alone”). Curiosamente, o artigo foi motivado pelo crescente desconforto que algumas pessoas manifestavam diante da invasão que as recentes câmeras fotográficas poderiam propiciar nos ainda influentes jornais.

O direito à privacidade é um direito não patrimonial, intransmissível, indisponível, inato, irrenunciável, vitalício, necessário e essencial. Isto é, independe se o sujeito é rico ou não, não pode ser passado para alguém, não se pode abrir mão dele, já nasce com a pessoa e vale para a vida toda, e é base para a própria definição de pessoa. No Direito Constitucional, a privacidade é um direito fundamental, e está nas maiores garantias jurídicas que um cidadão pode esperar do Estado. No Direito Civil, é um direito da personalidade, e numa classificação mais ampla, é um direito humano. Apesar disso, sabe-se que nenhum direito é absoluto. Isto é, pode ser contestado ou deixado em segundo plano diante de outro que se imponha como mais necessário ou válido.

A privacidade não é passível de questionamento apenas no mundo jurídico. Desde o final da década de 1960, sua morte vem sendo proclamada. Rosenberg (1969) inaugura uma linha pessimista, que é seguida por Miller (1971), Whitaker (1999), Sykes (1999), Garfinkel (2000), Koops & Leenes (2005) e O’Hara & Shadbolt (2008), para citar alguns. Para todos eles, o cenário é catastrófico, hipertrofiado pelo desenvolvimento de códigos computacionais, sistemas e algoritmos e por avanços nos campos da geolocalização, da criptografia e da interceptação de dados. Para eles, a privacidade sofre processos de erosão constantes, acelerados e inevitáveis.

Por outro lado, obras como as organizadas por Tubaro, Casilli e Sarabi (2014) e Sarat (2015) relutam diante do alarde da morte da privacidade e rediscutem o tema num contexto de redes sociais e big data, e sob a perspectiva jurídica pós-revelações de Edward Snowden, respectivamente. John & Peters (2016) enfrentaram o tema, analisando 101 artigos de jornal entre 1990 e 2012 que declaravam o fim da privacidade. As conclusões foram de que as alegações sobre o fim da privacidade apontam para uma ampla gama de causas tecnológicas e institucionais. Embora a privacidade venha sendo declarada extinta há décadas, não há um consenso sobre suas causas. Para os autores, a persistência da tese da morte da privacidade está na própria concepção negativa de privacidade cunhada por Warren & Brandeis em 1890. Assim, o direito à privacidade surgiu das condições para a sua violação e não a sua realização.

No jornalismo, o debate é absolutamente fechado em torno dos limites práticos de se respeitar um direito. Deve-se violá-lo em que situações? O que pode justificar tal atividade? Que responsabilidades deve assumir o profissional se vier a violar a intimidade de uma fonte?

Considerando a privacidade como a capacidade de alguém realizar coisas em sua vida sem o escrutínio público, Plaisance (2011) defende a necessidade de que jornalistas compreendam os matizes desse campo. Aqueles que não entendem apropriadamente isso podem causar tanto intromissões antiéticas quanto desgastes na sua credibilidade, fator decisivo para sua sobrevivência social. Daí porque repórteres e editores devam saber discernir qual interesse público está sendo atendido numa matéria e por que ele prevalece sobre a reivindicação de privacidade de alguém.

Metodologia

Para observar a presença, dimensão e tensionamento do tema privacidade nos manuais de ética jornalística, recorremos a uma análise documental em profundidade de dez obras de referência. A quantidade definida é arbitrária, apoiada no entendimento que a leitura de uma dezena de documentos pode oferecer um cenário abrangente e contributivo para uma maior compreensão dos tensionamentos éticos. Neste sentido, numericamente, a amostra é suficiente para o que se pretende apresentar neste artigo.

A composição do corpus de análise foi resultado da combinação de critérios que priorizaram amplitude histórica, abrangência geográfica e diversidade de perspectivas e abordagens teóricas. Assim, os documentos escolhidos foram publicados nas últimas três décadas, período marcado por sensíveis transformações tecnológicas e culturais para o jornalismo. São dois manuais publicados na década de 1990, três na década seguinte e cinco no período posterior. Embora tenham sido formulados em realidades específicas – o contexto europeu ou dos Estados Unidos, por exemplo - todos os documentos analisados têm alcance amplo, intencionam ser generalistas ou universalizantes, e têm circulação internacional, tendo sido editados em língua inglesa. São também obras de autoria única ou múltipla, todas de caráter deontológico, e expressando distintas abordagens éticas: prescritivas e descritivas, filosóficas e práticas, ilustrativas de boas práticas ou críticas de conduta.

Compõem o corpus de análise as seguintes obras: “Ethical issues in Journalism and Media”, de Belsey & Chadwick (1992); “Media Ethics”, de Kieran (1998); “Ethics for journalists”, de Keeble (2001); “Ethics and Journalism”, de Sanders (2003); “The Handbook of Mass Media Ethics”, editado por Wilkins & Christians (2009); The Handbook of Global Communications and Media Ethics”, compilado por Fortner & Fackler (2011); “The Handbook of Global Online Journalism”, organizado por Siapera & Veglis (2012); “Ethics of Media”, de Couldry, Madianou e Pinchevski (2013); “Ethics for digital journalists”, de Zion & Craig (2015) e “Controversies in Digital Ethics”, organizado por Davisson & Booth (2016).

Definida a amostra, elaboramos um instrumento para coleta e registro dos dados. Sob a forma de uma tabela, o instrumento foi estruturado sobre categorias de análise derivadas das questões-problema desta pesquisa: Como o tema da privacidade aparece em manuais de ética jornalística profissional? Há tensionamento entre o dever de informar e o direito ao sigilo ou entre o direito de informação e o dever de proteger a fonte? Quais subtemas relacionados à privacidade aparecem nos manuais? Que orientações de conduta são dadas aos profissionais?

Assim, o instrumento se equilibra em três dimensões: 1) visibilidade do tema privacidade nos manuais; 2) problematização do tema nos manuais; 3) recomendações de conduta nos documentos. A primeira dimensão permite uma avaliação bastante superficial e tem seis aspectos a serem observados. A segunda propicia um ligeiro avanço e contém quatro questões. A terceira dimensão de análise é a mais aprofundada, e tem 19 itens a serem registrados de cada manual.

A partir do instrumento52, adotamos um protocolo de pesquisa com quatro etapas: 1. Análise dos sumários das obras para identificação de seções ou capítulos que tratassem especificamente do tema privacidade ou afins; 2. Leitura integral das seções ou capítulos dedicados ao tema; 3. Varredura das versões eletrônicas dos manuais com base em termos referentes aos subtemas da pesquisa objetivando encontrar trechos exteriores às seções específicas (“privacy”, “secret”, “anonimity”, “source”, “off the record”, “celebrities”, “surveillance”, “right to be forgotten”, “public interest”, “right to information”, “hidden camera”, “disguise”, “leaks”, “whistleblowers”, “hacks”, “right to privacy”, “intimacy”, “safety”, entre outros); 4. Consulta a índices onomásticos das obras para encontrar entradas correlatas.

Preenchemos o instrumento de coleta e registro à medida que aplicamos o protocolo de pesquisa nos dez manuais da amostra. Os resultados são apresentados e discutidos na próxima seção.

Resultados

Para clarear como estão desenhados os contornos éticos relacionados a privacidade nos manuais de ética jornalística olhamos para três esferas que envolvem aspectos primordiais da privacidade e seus entornos (visibilidade, problematização e recomendações de conduta). Para facilitar a apresentação dos resultados, numerados os manuais (de 1 a 10), a saber:

“Ethical issues in Journalism and Media” - 1

“Media Ethics” - 2

“Ethics for journalists” - 3

“Ethics and Journalism” - 4

“The Handbook of Mass Media Ethics: - 5

“The Handbook of Global Communications and Media Ethics” - 6

“The Handbook of Global Online Journalism” - 7

“Ethics of Media” - 8

“Ethics for digital journalists” - 9

“Controversies in Digital Ethics”- 10

Em relação à dimensão de visibilidade do tema nos manuais, verificamos a existência de capítulos ou seções que tratassem especificamente da temática. Sete manuais tratam do tema (1, 2, 3, 4, 5, 6 e 10). Curiosamente, manuais mais recentes (7, 8 e 9) não apresentam partes específicas sobre privacidade. Nos manuais que tratam privacidade de forma particularizada, são dedicadas de 10 a 18 páginas exclusivas sobre o tema. As abordagens são problematizadoras e reflexivas, e cabe ressaltar que o manual 8 não apresenta capítulos e seções exclusivas sobre privacidade, entretanto, oferece uma discussão densa sobre a temática. Apenas o manual 7 não cita exemplos ou situações que ilustram dilemas envolvendo privacidade. De maneira geral, os manuais advertem, recomendam ou sugerem condutas que tratam de privacidade aos jornalistas. Em dois casos (7 e 9), a abordagem é mais filosófica ou superficial.

Em sete manuais (1, 2, 3, 4, 5, 6 e 10), são sugeridas leituras ou outros materiais para consulta e aprofundamento do assunto que geralmente ocorrem por meio de referências bibliográficas e indicações de leitura.

Na segunda dimensão – a de problematização da privacidade nos manuais -, verificamos a existência do tensionamento entre o dever de informar e o direito ao sigilo nos manuais. A questão não é tratada em três casos (7, 9 e 10), todos da última década. Nos casos em que o tensionamento aparece destaca-se, em mais de uma oportunidade, o debate central entre direito à privacidade e invasão de privacidade. Outro aspecto avaliado foi o dilema entre o direito de informação e o dever de proteger a fonte. Na maioria dos casos, sete deles (1, 2, 3, 5, 7, 8 e 10), ele não é tratado.

Já em relação a aspectos que envolvem o direito individual de privacidade e o interesse público, apenas o manual 9 não registrou nenhuma menção. A privacidade é tensionada com outros conceitos53 ou preocupações54 em praticamente todos os manuais. Novamente, somente o manual número 9 não realiza o tensionamento. A obra de 2015 é um guia que se propõe a apresentar e reunir boas práticas emergentes para jornalistas digitais. Trata de vazamentos de informação recentes, por exemplo: casos Snowden e WikiLeaks, e consequentemente debate temas e problemáticas ligados a transparência.

A terceira dimensão - ligada a recomendações de conduta - observou diversos aspectos relacionados a indicações, sugestões e advertências atreladas à privacidade nos manuais. Em relação à preservação do sigilo e identidade da fonte, seis casos (2, 5, 7, 8, 9 e 10) não registram nem uma indicação de conduta, dentre os quais estão os quatro manuais mais recentes. Dois manuais (3 e 4) admitem que o jornalista receba informações em off. Três manuais (4, 6 e 10) sinalizam a possibilidade do jornalista agir em anonimato, o anonimato da fonte é tratado de forma específica no manual número 1. Apenas uma das obras (7) analisadas não condena a invasão de privacidade, quatro delas (1, 2, 4 e 6) admitem que se faça gravações de áudio não autorizadas pela fonte e três (3, 5 e 6) admitem que se faça filmagens ou gravações de vídeo com câmeras escondidas.

Nenhum dos manuais avaliados aceita ou permite que o jornalista atue de forma disfarçada. Tal possibilidade sequer é mencionada. No tocante a identificação de fontes de grupos sensíveis ou vítimas a maioria dos manuais (1, 3, 4, 5, 6 e 10) adverte sobre algum tipo de conduta, apontando para diversos grupos, de crianças a vítimas, passando por aspectos como classe e raça. No que concerne ao segredo dentro dos limites da atuação do jornalista, oito casos (2, 3, 5, 6, 7, 8, 9 e 10) não admitem, outros três (2, 5 e 6) sequer tratam disso. Diante desse quadro, em algumas situações, os jornalistas podem não ter clareza da forma eticamente correta de ação em casos de vazamentos de segredos de Estado, por exemplo.

Celebridades, políticos e pessoas com funções públicas têm um caráter maleável de privacidade. Na maioria dos manuais esses sujeitos têm um tratamento diferenciado, apenas os quatro mais recentes (7, 8, 9 e 10) não têm essa indicação. Ainda em relação a esse assunto, metade dos manuais (1, 2, 3, 4 e 5) avaliados admitem a invasão de privacidade desses indivíduos. Contudo, recomendações sobre o direito de privacidade dos jornalistas em seu cotidiano de trabalho não são mencionadas em nenhum manual. Essa é uma discrepância que desafia o jornalismo, especialmente em tempos de vigilância em massa, controle social e censura algorítmica.

A privacidade, o sigilo e o segredo estão intensamente ligados. O sigilo tem uma relação particular com a intimidade e o segredo com a ocultação propositada. Em relação a essas características o único manual que cita situações ou contextos em que a informação precisa circular de forma restrita é o número 1, justamente o mais antigo, de 1992. Nessa esteira, apenas dois manuais (5 e 6) exibem preocupações com a privacidade do público consumidor de informação, porém, a maior parte deles (1, 2, 3, 5, 6, 7 e 10) trata de aspectos relacionados a vigilância e todos fazem menção ao uso de material obtido por meio de vazamentos. Oito deles (3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10) orientam a como lidar com as informações vazadas e com os denunciantes. Apenas os dois mais antigos não abordam o tema.

Atualmente, a dinâmica da privacidade é uma questão chave da dimensão ética do jornalismo que envolve métodos de vigilância e intrusão. As plataformas tecnológicas podem induzir ações equivocadas e os manuais consultados praticamente não fazem alusão à necessidade de políticas de privacidade de sites jornalísticos, apenas o manual 6 sinaliza uma preocupação semelhante e o direito ao esquecimento aparece em apenas dois casos (5 e 6).

Considerações finais

Os resultados deste estudo permitem apontar que a privacidade é uma preocupação presente nos manuais de ética jornalística e de certa forma é tratada com algum aprofundamento, entretanto, é controverso porque as recomendações nem sempre coincidem. Evidentemente, as considerações se restringem à amostra da pesquisa – dez manuais - e ao período que ela cobre, as últimas três décadas. Tais dimensões são limitadoras mas não devem ser ignoradas.

A ambiguidade é outra característica presente na abordagem da privacidade nos manuais porque é invocada como dever e como direito e regulamente tensiona o direito invidual e o interesse público.

A maioria dos manuais condena a invasão de privacidade, mas também admite que se possam gravar áudios e vídeos sem autorização. O anonimato é outro aspecto controverso e o uso de disfarce é condenado ou nem mesmo mencionado. Os manuais ignoram os direitos pessoais do jornalista quanto à sua própria privacidade, mas estão atentos aos grandes vazamentos de informação e orientam os jornalistas a como lidar com os denunciantes e essas controversas fontes.

Os manuais ainda não atentaram para questões preocupantes mais atuais, como as políticas de privacidade em sites e o direito ao esquecimento. Outros estudos são oportunos para aprofundar tais aspectos, sinalizando para novas investigações em torno da controversa galáxia de questões que a privacidade provoca no jornalismo.

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