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Representatividade e controle

Educomunicação: da inserção de jovens no ciberespaço às sociabilidades contemporâneas

Douglas Calixto

Resumo: O artigo propõe discutir as sociabilidades contemporâneas resultantes da presença cada vez maior de jovens nas redes sociais na internet. Compartilhando, curtindo, e interagindo em rede, crianças e adolescentes experimentam novas formas de ser e estar no mundo. Argumentamos que o conceito de 'rede' é parte integral das dinâmicas sociais, numa relação construída de forma híbrida entre indivíduos e tecnologia. Sem a pretensão de chegar à conclusões, o objetivo é trazer à tona como os mecanismos contemporâneos de produção e circulação simbólica têm influência decisiva entre crianças e adolescentes.

Palavras-chave: educomunicação, ciberespaço, redes sociais, educação, tecnologia

Abstract: The article proposes to discuss the contemporary sociabilities resulting from the increasing interaction of children and teenagers in social media. By sharing and playing, young experience new ways of living in the contemporary world. We argue that the concept of 'network' is an integral part of social dynamics, in a relationship constructed in a hybrid way between human beings and technology. Without the pretension to reach conclusions, the objective is to discuss how the contemporary mechanisms of production and symbolic circulation have a decisive influence among children and adolescents.

Keyword: educommunication, cyberspace, social media, education, technology

Introdução

Em julho de 2012, o paulistano Daniel Alcântara publicou um vídeo nas redes sociais com o seguinte título: "Perdi meu amor na balada". "Foi amor à primeira vista. Não acreditava nisso, mas aconteceu. E, eu, burro, perdi o pedaço de papel que ela me deu com o telefone. Queria pedir ajuda de vocês para encontrá-la"46. Esta foi a mensagem publicada por Daniel no Youtube. O jovem conheceu Juliana em um bar em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, e se apaixonou. Triste pela perda do lembrete com contato da moça, clamou por ajuda dos usuários da internet para reencontrar sua nova paixão.

A reação foi imediata e intensa. Milhares de pessoas, comovidas com a história, passaram a compartilhar o vídeo e tentar encontrar Juliana. Em comentários e posts no Facebook, foram diversas tentativas de investigar fotos e publicações no local onde o par se conheceu. Alguns tentaram enviar e-mails massivos para mailings de pessoas que costumavam frequentar baladas na região de Pinheiros. O bar onde tudo aconteceu foi entupido de mensagens, telefonemas e e-mails, de pessoas anônimas à procura de informações.
O fato repercutiu de forma viral nas redes sociais e, em menos de 24 horas, centenas de pessoas compartilhavam a angústia de Daniel em encontrar Juliana. Então, a surpresa. Preocupada com a proporção que o caso tomou — alguns chegaram a publicar vídeos emocionados, clamando por mais ajuda na busca —, a Nokia, empresa do ramos de telecomunicações, veio a público anunciar que, na verdade, Daniel Alcântara era um ator e o vídeo ‘Perdi meu amor na balada’ fazia parte de uma peça de publicidade para divulgar um novo modelo de telefone.

O que era comoção e espírito de colaboração, em poucas horas se transformou em fúria e ódios nas redes sociais. Enganada pela empresa, a multidão que há pouco ajudava Daniel, se virou contra ele e a Nokia. Foram organizados abaixo-assinados e petições on-line para denunciar a propaganda abusiva. Fóruns e chats on-line discutiam os limites éticos da ação. Nos meses (e anos) seguintes, a ação da Nokia foi objeto de estudo dos cursos de Comunicação para discutir o assunto engajamento e marketing digital.
Em suma, para não nos alongarmos com a história, a empresa foi notificada pelo Procon de São Paulo a responder se a peça ‘Perdi meu amor na balada’ não era abusiva. O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) também instaurou investigação para analisar se a campanha infringiu regras. Em setembro do mesmo ano, a Nokia venceu ação movida pelo Conar sob a justificativa de que o vídeo era uma técnica de comunicação legítima, e que os "filmes foram criados para internet". Se condenada, a empresa teria que desembolsar R$6 milhões de reais em indenizações. Mas venceu
47.
Poderíamos discutir diversas interfaces do fatídico episódio, como as questões éticas e o limites do marketing digital. No entanto, vamos nos concentrar em duas variáveis importantes para a discussão que propomos a seguir: (1) com as possibilidades de comunicação instantânea, assíncronas, e redes rizomáticas, vivemos uma nova fase de sociabilidades, que permitem relações descentralizadas e horizontais, capazes de mobilizar multidões em torno de interesses em comum. Tal fato contemporâneo, como ‘Perdi meu amor na balada’, não aconteceria há 20 anos, pois os mecanismos técnicos de produção e circulação simbólica não permitiram a ação compartilhada e colaborativa do público. (2) Essa nova realidade comunicacional tem desdobramentos decisivos para os jovens. São eles que experimentam de forma mais intensa as novas possibilidades oferecidas pelas redes sociais na internet. No Brasil, pelo menos 79% dos jovens com acesso à internet têm perfil em sites como Facebook, Instagram e Twitter (CETIC, 2016). O que remete à indagações sobre qual é o papel dos sistemas de ensino frente ao desafio posto pela velocidade e aceleração com que os estudantes se relaciona. São os afetos e a tensão de casos como de Daniel e Juliana que mobilizam crianças e adolescentes nas redes sociais.

Sem pretensões generalizantes ou conclusivas, o objetivo desse artigo é suscitar questões fundamentais sobre a inserção de jovens nas redes sociais e os desafios que se apresenta aos educomunicadores justamente sobre essa nova realidade comunicacional. Há poucas possibilidades de intervenção ou de novas abordagens pedagógicas, em termos de comunicação e educação, se alguns fatores não forem discutidos. Vamos a eles.

Sociabilidades nas redes sociais na internet

As redes sociais, além de proporcionar novas formas de relação com as mídias, ampliou as possibilidades de conexão à internet, o que significa leques de interação cada vez mais amplos (RECUERO, 2014). Os sujeitos estão, portanto, expostos a inúmeras formas – on-line e offline – de associações e conversações, organizadas em uma gama quase inesgotável de linguagens e formatos. Nos dias atuais, cutucar, fazer uma selfie, classificar conteúdos com estrelas ou até mesmo promover vomitaços48 em páginas políticas fazem parte de uma nova forma de sociabilidade. Esses processos se intensificam a partir da intensa presença de jovens no ciberespaço: a apropriação de sistemas técnicos pelos indivíduos passa a influenciar as interações e as vivências em grupo – fundamentais para a constituição do sujeito. Ou seja, independente da mediação, digital ou analógica, o que importa é a troca de significados, conhecimentos, valores e o contexto sociocultural em que se estabelece a vivência em grupo. O indivíduo é um ser em constante transformação, jamais fechado, que se constrói a partir da diferenciação em relação ao outro. A diferença marcante de nossos tempos é que, cada vez mais, esses processos se desenvolvem no ciberespaço.

Aqui é importante definir nosso entendimento sobre este termo. Para Lévy (2010), não há um mundo paralelo, desconectado da realidade ou do espaço físico. O ciberespaço é um lugar constituído pela interação dos atores sociais numa relação híbrida com sistemas técnicos e fluxos de informação das redes digitais. Portanto, não podemos conceber as redes sociais na internet como um espaço desconectado do “mundo real”, aquele onde vivemos. Não é possível também separar o que acontece on-line do que chamamos de convívio offline: as relações estão interconectadas e são construídas mutuamente, mesmo que haja um imperativo contemporâneo de tratar o ciberespaço como “o mundo virtual”, onde as relações sociais são uma espécie de peça de ficção. No senso comum, a palavra virtual é frequentemente utilizada para designar o que não é real. O termo “realidade virtual” – difundido em larga escala na imprensa e na web – pressupõe um universo paralelo, com uma conotação de magia, que pertence ao plano da irrealidade. Nessa perspectiva, não seria possível ser real e virtual ao mesmo tempo, pois são posições naturalmente excludentes. No entanto, virtual não se opõe ao real, mas sim ao atual (LÉVY, 1996). Virtualidade e atualidade são “apenas dois modos diferentes de realidade” (LÉVY, 2010, p. 49). Isso significa, para nos atermos a um exemplo filosófico apresentado pelo autor, que toda semente é virtualmente uma árvore. Ou seja, não lidamos com ficção, pois há realidade de árvore em uma semente, pois ela tem a potencialidade de germinar e crescer. Portanto, ela não é irreal. Na verdade, ela não é atual, pois ainda não se manifestou.

Quando Lévy (1996) responde O que é Virtual busca justamente explicar que a virtualização é um processo que acompanha o desenvolvimento da humanidade. Virtual não surge com a popularização de computadores ou com as redes sociais, mas sim com desenvolvimento simbólico e da linguagem. Nossa relação com o mundo é mediada, portanto, os códigos e as significações, que pertencem ao âmbito do virtual, dão sentido às interações no cotidiano. Quando falamos, por exemplo, emitimos por meio de nossas cordas vocais uma onda sonora, física, que chega aos ouvidos do interlocutor. Virtual, explica Levy, é o jogo de significados e abstrações que transformam o som produzido em um código simbólico. Ou seja, o real – a onda sonora produzida pela boca – acompanha e coexiste com o virtual – as significações e os sentidos atribuídos pela linguagem –, numa relação híbrida e incessante. Concluímos, então, que o mundo digital integra totalmente a realidade, afinal os sistemas técnicos que organizam as redes digitais são físicos. Os códigos binários de digitalização, assim como as telas e os computadores e as redes WiFi, são também elementos reais. As relações dos jovens no ciberespaço são, portanto, absolutamente reais e, ao mesmo tempo, virtuais.

A vida social, nesse sentido, é composta pelas relações que desenvolvemos com as tecnologias e se desenvolve na reciprocidade entre individual e coletivo. Ora, na inserção em grupo, há o impulso de se integrar ao todo, sentir-se parte de um coletivo, compreendendo os códigos e a produção cultural dos interlocutores. Logo, somente no social é possível assumir uma identidade e cumprir um determinado papel, tornando-se também produtor de cultura.

As redes sociais influenciam a forma e a intensidade como as interações acontecem. Das rodas de conversa, do face a face, do contato visual, do afeto, entre outras interações presenciais, passamos também (e é imperioso pontuar o advérbio também, afinal uma coisa não exclui a outra) a nos relacionar em grupos no Facebook, Whatsapp, conversas e experiências mediadas pelo computador. É nesse contexto, amplamente marcado pela velocidade de fluxos de informações, que os jovens interagem, construindo-se socialmente. Embora o discurso – amplamente divulgado – de que “as redes sociais sempre existiram, agora só estão no computador” tenha alta adesão, estamos diantes de novas modalidades de relacionar-se com o outro, marcadas por ritmos acelerados de conversação, mediadores diversos e por um rompimento total dos eixos emissão-recepção e escritor-leitor. Há uma percepção, sobretudo de adultos, que, com os celulares em mãos no regime 24/7 (CRARY, 2014), os jovens não se encontram mais e o convívio offline é marcado pela mudez e pelo embaraço da relação olho no olho, o que supõe que as tecnologias digitais estão corroendo as sociabilidades e que os indivíduos caminham para o total isolamento. Assim, cresce um discurso, geralmente reacionário, de que as redes sociais estão substituindo o convívio offline nos bairros e nas cidades. Na esteira desse pensamento, surgem movimentos para demonizar as tecnologias e os possíveis efeitos corrosivos da internet.

André Lemos (2016b) explica que o problema é exatamente o oposto: com o impulso das redes sociais, cresce a dificuldade em se desconectar e experimentar a solidão. A conexão e as interações acontecem num ritmo acelerado e frequente, o que torna rarefeita as oportunidades de isolamento, silêncio e autorreflexão. Possíveis vazios em relação ao espaço-tempo são preenchidos com acesso ao Facebook, ao Whatsapp e na interação com as redes. Na perspectiva de Lemos, a ideia do isolamento se torna uma falsa premissa, pois a questão central que se apresenta é a qualidade do estar junto e como o fazer coletivo das redes digitais podem ter relevância social.

Também para refutar as ideias de corrosão da vida social, Levy (1996) explica que, na verdade, uma série de pesquisas aponta que as pessoas que mais interagem nas plataformas digitais são as que também mais o fazem no convívio offline. Parques e espaços públicos continuam lotados de jovens, praticando esportes, namorando e produzindo cultura. O diferencial é que agora as redes sociais se tornaram um novo elemento de socialização, híbrido e integrado ao que é produzido fora das redes. Portanto, dissociar ou criar dicotomias maniqueístas sobre a interação dos jovens no ciberespaço nos parece outra falsa premissa.

É necessário um olhar ecossistêmico que compreenda a dimensão e as transformações em trânsito com essa nova realidade. Determinismos tecnológicos (LEMOS, 2015), que anunciam a catástrofe da infância e juventude, nos impedem de uma compreensão mais abrangente sobre as redes sociais. O fenômeno recente dos rolezinhos – encontros massivos de jovens em shopping centers na cidade de São Paulo, embalados pelo som de funk ostentação, culto ao acúmulo de capital e manifestações diversas– evidencia como as interações sociais desenvolvidas por crianças e adolescentes são compostas de forma híbrida e complexa. Mobilizados e articulados em redes sociais, os encontros culminam em interações no convívio offline. Não há isolamento ou substituição de um pelo outro, muito menos polarizações generalizantes: o que há é uma multiplicidade de fatores que criam novas sociabilidades, reconfigurando o que é ser e estar no mundo contemporâneo.

Em contrapartida, devemos categorizar que não buscamos cultuar as novidades impostas pelo mercado ou pelas gigantes da internet. O que buscamos é adentrar ao contexto contemporâneo da inserção de jovens no ciberespaço. Como propõe Lipovestky (2004), nem odiar nem amar: o objetivo é compreender a realidade. E o fato é: com as redes sociais, sistemas técnicos, construídos pela perspectiva de mercado, têm criado novas modalidades de interação on-line, com mediadores inéditos que reconfiguram as relações desenvolvidas no ciberespaço. Discutiremos agora algumas dessas variáveis.

Filtro-bolha e esgotamento do plural

Para uma análise das dinâmicas dentro de redes sociais na internet precisamos compreender o que é a configuração dos algoritmos. Esta é uma ferramenta utilizada pelos principais sites e mecanismos de busca da internet para determinar o que é ou não é relevante a ser apresentado aos usuários da rede. Basta imaginar que a produção e a circulação de conteúdo no ciberespaço são inesgotáveis, sendo praticamente impossível acessar tudo o que é produzido. Logo, há a necessidade de um sistema selecionar e ordenar o que será mostrado. O algoritmo, cálculo matemático que personaliza as configurações dos sites, funciona como ferramenta que executa o trabalho de “filtrar” e “determinar” o que será apresentado aos indivíduos. Facebook, Google e muitos outros portais trabalham sob essa dinâmica, estabelecendo critérios de relevância para categorizar o que aparece (ou não) durante a navegação on-line. Eli Pariser (2011) analisou esse funcionamento da circulação de informações na lógica do algoritmo. O pesquisador explica que cada usuário da internet tem o seu perfil personificado de acordo com as suas preferências – ideológicas, econômicas e sociais –, afetando o tipo de conteúdo que com ele interage. Por exemplo, o Google utiliza o histórico dos navegadores (Explorer, Firefox ou Chrome, entre outros) para determinar o conteúdo que será apresentado ao utilizar o mecanismos de busca. Como exemplifica Pariser, se você se interessa por questões políticas, quando escrever a palavra Egito no Google terá como resultado principal informações sobre a Primavera Árabe ou sobre notícias de ordem econômica e social em torno do Norte da África e Oriente Médio. Se o interesse for por viagens e turismo, o resultado seria, por exemplo, onde ficam as pirâmides e os principais destinos para lazer e entretenimento no país. O Facebook, por sua vez, determina o que será apresentado por meio dos critérios de interação dos usuários. Quanto mais vezes você curte, compartilha, cutuca ou comenta o conteúdo de uma determinada pessoa ou página, o algoritmo determina que você receberá mais informações sobre essa pessoa em sua timeline. Se você é corintiano, provavelmente poucas informações sobre outros clubes de futebol que não sejam o Corinthians aparecerão em suas redes.

Para os efeitos desse fenômeno de relevância sob dependência de um gatekeeper digital para o conteúdo ser apresentado aos usuários, Eli Pariser classifica como filtro-bolha49. O autor aponta que o problema decorrente dessa situação é que, como as principais relações nas rede são com pessoas de maior afinidade e de alinhamento ideológico, a tendência é um afastamento do que é plural e diferente ao seu universo particular. Ou seja, a personificação de conteúdos e interações torna-se o imperativo central nas redes, pois o que é produzido on-line é filtrado e categorizado a partir dos padrões estabelecidos pelos algoritmos. Os sistemas técnicos passam a organizar a disposição da informação conforme os desejos e as preferências manifestadas durante a navegação na internet. Se você realiza uma busca, por exemplo, sobre preços de sapatos, os algoritmos identificam que você está procurando um determinado serviço e passam a exibir em sua tela sistematicamente possibilidades de marcas, preços e locais de compra para o sapato pesquisado. Nas redes, se você curte, compartilha e interage com alguém, automaticamente terá mais informação sobre esse interlocutor em comparação com um outrém que se interaja pouco.

O resultado dessas configurações é que os inter-agentes da internet podem ter uma percepção pouco plural e diversificada da realidade. O risco que se corre é de ter a informação – tão importante para o desenvolvimento e a interação social – cada vez mais concentrada em torno de nichos, já que o filtro do que é e o que não é relevante ficará nas mãos das empresas de internet, especificamente do cálculo produzido pelos algoritmos. Dentro do fenômeno de filtro-bolha, as pessoas tendem a compartilhar as mesmas opiniões, polarizando e afastando de sua linha do tempo quem pensa de forma diferente (PARISIER, 2011). Quando surge algo distinto da sua forma de ver o mundo, a tendência também é buscar nos pares argumentos para rechaçar imediatamente a opinião contrária. Impulsionados pela lógica neoliberal, somos direcionados cada vez mais a agrupar-se em grupos homogêneos. Em outros termos, as redes digitais criam filtros-bolhas que nos colocam dentro de esquemas generalizantes onde a singularidade é evidenciada apenas por padrões e prefererências de consumo. É a sedução e o capitalismo artista discutidos em Lipovetsky e Serroy (2015) em seu ponto auge, pois, com a personalização dos conteúdos em bolhas, a produção imaterial atende a nichos específicos de desejos e emoções. A personalização é tamanha na atualidade, para nos atermos a dois exemplos do cotidiano das cidades, que os algoritmos são capazes de detectar em qual restaurante você almoçou, apresentando nos dias seguintes propagandas específicas da culinária que te agrada; ou o aplicativo Uber pode alterar o preço das corridas de acordo com a demanda ou oferecer descontos caso consiga detectar, por meio de um sensor eletrônico, que a bateria do celular de um possível passageiro está acabando.

Outra variável importante para as sociabilidades experimentadas pelos jovens, e marcadas pela interação no ciberespaço, é o crescimento exponencial das possibilidades de escolha e, consequentemente, da exigência por decisões. Em alguns minutos conectados às redes sociais na internet, interagimos com centenas de informações, conversas, notícias e, claro, memes.

Com a velocidade da timeline do Facebook ou dos inúmeros grupos de WhatsApp, há uma pressão para acompanhar tudo e, consequentemente, uma frustração por não conseguir absorver todo o conteúdo. As abas dos navegadores de internet, também conhecidas como guias, se proliferam a cada acesso, com dezenas de páginas abertas. Barry Schwartz (2012) classifica esse fenômeno como o paradoxo da escolha. Ou seja, quanto mais opções temos, mais somos pressionados a tomar decisões, o que nos leva muitas vezes à sensação de paralisia, depressão e impotência frente à necessidade de escolher a todo momento com quem interagir, o que comprar, o que compartilhar, o que ler e assim por diante. O excesso de informação nos remete à sensação de estar perdendo algo e, paradoxalmente, ao fazer escolhas, temos a sensação de não termos feito a melhor decisão. Escolher um filme em plataformas de filmes on-line, como Netflix, se torna um fardo a cada acesso. São tantas opções que indivíduos acabam escolhendo nenhum, ou frustrados após poucos minutos do início da película.

Em termos da relação de jovens com o ciberespaço, precisamos compreender de forma mais abrangente os limites da questão de estar sozinho, não conectado, offline, pois a experiência da solidão nada mais é que o exercício da reflexão, da retomada de tempo para o desenvolvimento pessoal. São nos erros, deslizes e frustrações que vivenciamos processos de descoberta enquanto atores sociais. No entanto, é importante categorizar: como marca do nosso referencial teórico, adotamos a perspectiva da complexidade, o que nos impede de assumir posições dicotômicas em relação jovens e as novas sociabilidades no ciberespaço. Evidentemente, que filtro-bolha e outras manifestações das redes sociais não existem por si mesmos e as interações no ciberespaço não são condicionadas passivamente a essa variável. Isso não significa que as questões levantadas pelos estudos da neurociência, a proposta de Sherry Turkle e possíveis desdobramentos dos referidos fenômenos não sejam levados em consideração, afinal, embora apresentem uma perspectiva de corrosão das sociabilidades com uso das tecnologias, exploram consequências importantes para a vida social em tempos de redes. O que buscamos suscitar, mesmo que brevemente neste artigo, são alguns fatores que influenciam a percepção que jovens têm sobre as redes sociais.

É fundamental também pontuar que as variáveis atuantes nos processos de socialização contemporâneo são múltiplas. Poderíamos discutir questões relacionadas à privacidade, à segurança, à vigilância, à análise do discurso, porém, acreditamos que a perspectiva teórica apresenta neste texto nos posiciona sobre aspectos substanciais ao fatores que influenciam a inserção de jovens no ciberespaço. A questão que emerge desse contexto e se torna fundamental para o que tentamos debater é: como esses fenômenos podem influenciar as interações sociais?

Partimos da premissa de o que nos constitui enquanto espécie é sermos híbridos, ou seja, formados a partir da relação de transformação mútua desenvolvida com objetos, sistemas técnicos e o meio social onde vivemos. Não há separações entre humanos, de um lado, e técnica, do outro. A referência a autores que alertam sobre os efeitos das redes sociais para as sociabilidades associados a autores que relativizam esses processos têm como objetivo politizar nossa abordagem para além de otimismos e pessimismos. É um dever nos questionar sobre que tipo relação estamos estabelecendo com as plataformas digitais, a fim de compreender a realidade e trabalharmos pela qualidade do estar junto.

Educomunicação: dinamizando duas áreas do conhecimento e concluindo nosso trabalho

Não há espaço para discutir em profundidade o que o conceito Educomunicação remete. Por isso, utilizamos o conceito para concluir o nosso trabalho. O neologismo, fusão das palavras comunicação e educação, sintetiza a aproximação e o diálogo permanente que marcam as duas áreas do conhecimento. Essa proposta prevê que, com o papel estratégico da comunicação, em seus vários níveis, incluso, portanto, o contexto da educação, a inter-relação deve ser vista na sua integração e hibridicidade.

Ao suscitar o conceito — logo no título do artigo —, fazemos referência a uma nova área do conhecimento que, estrategicamente, que pensa os movimentos híbridos e os conflitos que integram (e, claro, também tensionam) comunicação e educação, em um mundo altamente influenciado pelas mensagens e os bens simbólicos que circulam nos meios de comunicação. E, no caso específico deste artigo, as novas sociabilidades experimentadas pelos jovens a partir da inserção no ciberespaço. Essa referência nos oferece a oportunidade de compreender as dinâmicas entre estudantes e tecnologias a partir de uma perspectiva sistêmica, distanciada de polarizações, que “não se reduz a fragmentos, como, por exemplo, a eterna discussão sobre a adequação da utilização das tecnologias no âmbito escolar” (BACCEGA, 2011, p. 34). Citelli (2011) categoriza qual é “o ponto”, quando falamos em Educomunicação.

Este é o ponto: a comunicação transformou-se em dimensão estratégica para o entendimento da produção, circulação e recepção dos bens simbólicos, dos conjuntos representativos, dos impactos materiais — afinal estamos falando, também, de uma indústria que faz computadores, vende celulares, televisores de alta definição etc. Tal conjunto de sistemas e processos está provocando profundas transformações sociais, de algum modo promovendo impactos diretamente na vida dos homens e mulheres do nosso tempo, quer velando, quer revelando ou desvelando informações e conhecimentos. À totalidade desses circuitos de retroalimentação envolvendo desde o plano da produção material, passando pelas estratégias de composição e circulação das mensagens, chegando aos jogos coenunciativos, podemos chamar de ecossistema comunicativo — conceito utilizado, em sentido próximo, por autores como Mario Kaplún, Jesús Martín-Barbero, Pierre Lévy, Adilson Citelli e Ismar Soares. (CITELLI, 2011, pg.62)

Claro, há uma série de abordagens teóricas que dinamizam a inter-relação comunicação e educação. Com o risco de reducionismo extremo, o que buscamos com este artigo é apontar algumas questões relevantes para pensar essa nova área, sobretudo, quando discutimos possibilidades de intervenção com jovens. Desconsiderar as variáveis apresentadas ao pensar a inserção da comunicação na educação nos parece um caminho errado, visto, como afirma Citelli, a posição central que ocupa a mídia nas relações sociais contemporâneas.

Educomunicação não serve apenas para ensinar a usar o Facebook em sala de aula ou como criar estratégias de engajamento e alcance orgânico nas redes sociais. O propósito é, a partir da apropriação dos meios técnicos, sejam eles quais forem - do WhatsApp à fita cassete -, propiciar o uso consciente e crítico para buscar a transformação do mundo. Isso passa obrigatoriamente por compreender como funcionam os mecanismos e os processos de socialização no ciberespaço.

Negar ou demonizar o jogo de representações e linguagens que circulam nas redes sociais ou na super tecnologia que pode surgir na próxima semana, fazendo sucesso avassalador entre crianças e adolescente, é negar a produção simbólica que circula entre esses jovens. A possibilidade de melhores resultados passa, arriscamos dizer, pela compreensão da negociação de sentidos e da sintonia com aquilo que faz parte do cotidiano dos estudantes, ou seja, esse novo cenário comunicacional.

Referências bibliográficas

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CITELLI, Adilson. Comunicação e educação: implicações contemporâneas. In: CITELLI, Adilson & COSTA, Maria (orgs.). Educomunicação: construindo uma nova área do conhecimento. São Paulo: Paulinas, 2011.

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